Perfil

Heraldo do Monte, soberano da guitarra

Por Daniel Brazil - 20/07/2010

Heraldo do Monte é uma espécie de lenda viva da música brasileira. Mas, ao contrário dos mitos, continua ativo, tocando e impressionando os amantes da música instrumental com sua enorme versatilidade e técnica excepcional. O mestre americano Joe Pass – atenção, isto não é lenda! – chegou a considerá-lo o melhor guitarrista do mundo, quando viu o pernambucano voar alto com sua Gibson.

Heraldo é mais que um guitarrista, palavra associada apenas ao instrumento elétrico de seis cordas aqui no Brasil. Toca violão, cavaquinho, bandolim, contrabaixo, compõe e arranja. E tem uma preferência toda especial pela viola de 10 cordas, de sotaque nordestino, que marcou a sua infância em Recife.

Nascido em 1935, já havia tocado em muitos bailes quando resolveu ganhar a vida em São Paulo, nos anos 60. Foi músico contratado da TV Tupi, e começou a chamar a atenção do grande público quando formou o Quarteto Novo, com Théo de Barros, Hermeto Paschoal e Airto Moreira. É difícil imaginar qual seria o impacto de canções vencedoras de festivais, como Ponteio (Edu Lobo) e Disparada (Geraldo Vandré), sem os arranjos e a participação do Quarteto Novo. Com sua mistura de instrumentos tradicionais com improvisos jazzísticos e virtuosismo na execução, logo fizeram carreira internacional. Depois de três discos, os integrantes do grupo partiram para trabalhos individuais, embora tenham se encontrado depois em várias situações.

Publicidade

Heraldo lança, nos anos 70, O Violão de Heraldo do Monte. Passa a trabalhar como acompanhante, ao vivo e em estúdio, dos principais nomes da música brasileira. Nos anos 80, participa do histórico ConSertão, junto com Elomar, Artur Moreira Lima e Paulo Moura. Gravou mais 3 álbuns nesta década. Perfeccionista, gosta de burilar suas criações musicais até a perfeição. Seu último disco chama-se Viola Nordestina (Kuarup, 2000) e volta a beber na fonte que sempre o inspira, mesmo quando faz solos de assombrar roqueiros e blueseiros.

Hoje, aos 75 anos, e tocando como nunca (ou melhor, como sempre), Heraldo é certamente o mais importante pioneiro da guitarra de sotaque brasileiro, seguido de perto por Hélio Delmiro. Ambos surgiram numa época em que guitarra elétrica era vista com desconfiança pelos nacionalistas. Hoje os ânimos estão mais apaziguados, mas poucos instrumentistas das gerações posteriores souberam dominar a linguagem criada e desenvolvida por Heraldo do Monte, que continua soberano.

Publicidade