Perfil

Ernesto Pires: o bom samba de volta à Lapa

Por Rogério Lessa Benemmond - 04/10/2004

O cantor e compositor Ernesto Pires é assim, alquímico - talvez por sua formação em engenharia química – e consegue transitar com desenvoltura por todas as matizes, gerações e bairros do genuíno samba carioca. Ele vive cercado de bambas “da antiga” e dá espaço para novos talentos como Teresa Cristina, que teve o primeiro samba gravado em seu disco, Novos Quilombos. Como intérprete, é dono de divisão rítmica particular. Enfim, é “do ramo”, como já disse Tarik de Souza.

De volta à Lapa, desta vez no Lapases, ele espera repetir às quintas-feiras o sucesso de 10 meses no Café Cultural Sacrilégio, onde levou mais de 40 sambistas, dos mais diferentes estilos. “Ao mesmo tempo que tivemos Monarco, Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Luiz Carlos da Vila e Mauro Diniz, recebemos Bebeto São João, que está há mais de 20 anos fora da mídia, Marquinho Diniz, Bandeira Brasil e Tia Surica, antes de gravar seu próprio disco. Levamos também Agenor de Oliveira, Ataulfo Alves Jr., que são de outra praia. Basicamente, não repetimos ninguém, somente no último mês de temporada, por exigência da casa”, orgulha-se, lembrando do elogio de Luiz Carlos da Vila, que classificou as noites Ernesto no Sacrilégio como “a melhor roda de samba da cidade”.

Entusiasmado com o sucesso do samba entre as novas gerações, Ernesto critica o preconceito que ainda paira sobre a matriz da MPB. “O samba não é mais considerado parte da MPB, foi excluído, quando na verdade é a origem de tudo. Várias revistas que fazem pesquisa de lançamentos colocam MPB separada do samba. Mas põem o samba junto com o pagode”.
 

Publicidade

Você está sempre acompanhado de bambas da antiga e da nova geração. A que atribui esse prestígio?

Tem a história de eu ir a todos os lugares. Nunca me privei de ir ao subúrbio. Acho que o subúrbio hoje está voltando, mas ficou um longo tempo sem ter permanentemente um lugar de bom samba. Tinha muita coisa misturada, mas havia alguns eventos específicos, que são muito importantes. Festa na casa de pessoas. Agora tem a reunião na Portela, há um ano apenas. Antes o que tinha? Um aniversário para ir na casa de Dona Nenén, viúva de Manacéa, sempre alguma coisa na vila da Surica. Carlinhos Doutor é um que sempre fez algumas coisas boas no Irajá, Cascadura. Tinha a birosca do Fininho, em Osvaldo Cruz, com uma comida e um samba. Nesses lugares ia todo mundo e foi assim que eu conheci as pessoas. Convivendo com elas, fazendo samba com elas. É por isso que há uma consideração. Monarco foi meu padrinho no projeto Novo Canto, do Sesc. Fui o primeiro sambista a aparecer no projeto, muito direcionado à chamada MPB.


Por que “chamada” MPB?

Excluíram o samba da MPB. O samba não faz mais parte da MPB e na verdade é a origem de tudo. É a síntese de toda a MPB, hoje colocado de forma separada. Várias revistas que fazem pesquisas de lançamentos colocam MPB separada do samba e pagode. Mas põem o samba junto com o pagode.

Fora o Carnaval, que tem um samba como um de seus pilares, o samba é a única manifestação cultural que é feita do norte ao sul do país. No Amapá se encontra um conjunto de samba ou alguém tocando samba. Em Pernambuco, cuja matriz da música é o frevo, o maracatu, encontra-se o samba. Na Bahia temos Nelson Rufino, Tião Motorista, Batatinha, compositores fantásticos. E não estou falando do samba de roda e de coisas do século retrasado.
 

Outra prova de que você só anda bem acompanhado é o seu disco. Conte um pouco da história dele.

Voltei para o Rio, em 1997, com o objetivo de priorizar a história da música. Tanto que perdi muitas oportunidades como engenheiro químico, inclusive o grande emprego que eu tinha em São Paulo, por que me dediquei muito mais ao samba. E como eu ia a todos os lugares, as pessoas passaram a me respeitar. Elas gostavam da forma que eu cantava e tocava, uma forma que agregava. Nessa época, em que eu estudava cavaquinho com o Zé Paulo Miranda, o Mestre Zé Paulo, conheci o Duarte (grande percussionista falecido recentemente), que foi muito importante para mim. Os dois começaram a insistir para que eu fizesse um disco. Aí resolvi fazer. E optei exclusivamente por músicas inéditas.


Quantas músicas são suas no CD?

Três. Como já tinha um prestígio nas rodas e as pessoas davam valor ao que eu estava fazendo, foi muito fácil reunir mais ou menos umas duzentas músicas. Fiz uma pré-seleção de 25 a 30 músicas e chamei três pessoas que eu achava que conheciam esse universo para escolherem 10. Didu Nogueira, Ari Miranda do Simpatia e o Lefê Almeida. A partir dessa escolha deles, conversei com o Zé Paulo e definimos as 14 músicas do disco. Não pesou o nome, mas a qualidade e o equilíbrio.


Aí teve gente de todo lugar...

Uma regravação do Heitor dos Prazeres, Ratinho, Barbeirinho, Serginho Meriti. Muitas pessoas me dizem que o disco não cansa até o final. Acho que é por causa da diversidade de assuntos, de motes de cada um dos sambas, como também diversidade rítmica: tem samba-choro, partido alto, dolente, samba de terreiro. E também a diversidade de compositores. Luiz Grande e Marquinho Diniz, Bandeira Brasil, Wilson Moreira, Zé Luiz do Império Serrano, Wanderlei Monteiro, o primeiro samba da Teresa Cristina gravado, do Marceu Vieira, primeiro samba do Janjão, do Beto Fininho. Tem novidade.
 

Há um rótulo para o samba, como sendo “coisa de morro”. Como o samba entrou na vida de um engenheiro químico?

Desde menino. Tenho algumas lembranças. Lembro-me de ensaios de um bloco, num bar, ainda em Brasília, onde, apesar de carioca, morei até os 13 anos. Eu tinha um tarol ou caixa. Os adultos ficaram impressionados com minha facilidade rítmica. Brincava de carrinho ouvindo os discos dos festivais da MPB, fazia questão de colocá-los na vitrola. Uma das grandes safras da música brasileira, depois da década de 30, foi a década de 70. Mas não tive um berço de samba, não fui educado na escola de samba. Meu pai era um boêmio, gostava de Noel Rosa. É uma tradição assim, mas não tem nenhum músico, nenhuma origem musical. Minha mãe gostava de samba, era considerada a única que sabia sambar na família, que conseguia mexer o quadril, mas ao mesmo tempo tinha uma história de preconceito.
 

Como você lidou com isso?

Quando cheguei de Brasília, aos 13 anos, fui morar na Tijuca, no Largo da Segunda Feira. Perto do morro do Turano formou-se um bloco de rua e quando minha mãe viu eu estava no meio. “Já está você lá no meio daquele monte de pretinho”, disse ela. Hoje não discrimina mais e acho que foi por minha causa.
 

Na sua adolescência, a classe média ia à discoteca. Como o samba chegou a você?

Tive muita sorte. Com 14 anos entrei na Escola Técnica Federal de Química e lá tive como contemporâneos ninguém menos que Paulão 7 Cordas, Henrique Cazes e Mongol. Henrique não era ainda um sambista ou chorão. E nem tocava cavaquinho, mas violão. Todos eram muito musicais. Tinha sempre um aniversário e a patota toda se reunia, violão passando de mão em mão. A primeira música que o Mongol fez foi um samba que eu defendi no colégio Coração de Maria, com 15 anos.

Passei muito tempo fazendo voz e violão, sobretudo em São Paulo. E quando se faz voz e violão se canta de tudo. Sou cantor e sobrevivia disso. Fui para Búzios e fiz sucesso cantando rock and roll. Ao mesmo tempo, fui ser apresentador de karaokê com Ivon Curi. Ele exigia que os apresentadores dele fossem músicos. Eu fazia a abertura, tocando violão. Dali surgiram propostas para cantar em piano bar. Logo eu já estava cantando no Jacuí, em quatro, cinco idiomas. Standarts de jazz, mais as músicas do povo italiano, do povo francês, espanhol, etc.
 

Quando deixou de ser generalista?

Quando voltei para o Rio, em 1977. Assumi como única opção esse meu lado samba que até então estava escondido. Pouco antes, fiz uma terapia anarquista com Roberto Freire em São Paulo e ele me deu uma dura. Tinha uns encontros nacionais em que as pessoas apresentavam seus trabalhos artísticos e eu já estava lá há seis meses e não apresentava nada. “Você faz críticas super pertinentes, todo mundo sabe o que você toca, você diverte todo mundo, é um puta artista e não apresenta nada”, disse e me desafiou para apresentar alguma coisa no próximo encontro. Apresentei três músicas e duas eram sambas. Isso mostra bem claro que, quando resolvi compor, o que eu tinha dentro de mim era o samba. Aí voltei para o Rio e comecei a compor, compor. O primeiro show foi com esse cara aqui (aponta para Didu Nogueira, que acabara de chegar). Ele gostou de mim cantando no Bip Bip e convidou para fazer um show junto.
 

Você voltou para o Rio com 13 anos. Quando foi para São Paulo e Belo Horizonte?

Entre 1970 e 1980 fiquei somente no Rio. Entre 1981 e 1986 fiquei entre Rio e São Paulo. Em 1986, fui para Belo Horizonte, estudar na Escola de Música Livre, do Milton Nascimento. Em BH tem uma história interessante com um grande violonista, o Gilvan de Oliveira. Em dois meses eu já estava com um conjunto montado atacando na noite. Lá eu era exclusivamente cantor de MPB. O conjunto era baixo, bateria e guitarra. Às vezes eu tocava violão também.
 

Quando começou a cantar profissionalmente?

Efetivamente, em 1981, em São Paulo, quando trabalhava de segunda a segunda com música. Fiquei um bom tempo lá vivendo de música. Houve períodos de jornada dupla. Acordava às sete da matina, trabalhava com a química até cinco da tarde, dormia de seis às nove e meia, atacava às dez, até quatro da madrugada e dormia de quatro às sete. (Didu Nogueira: “Cabra valente...”). Obviamente não era todo dia que o trabalho ia até quatro da manhã. Mas todo dia tinha trabalho.
 

Você é cantor, instrumentista e compositor. Do seu ponto de vista, como está a renovação no samba?

O samba nunca teve um momento tão bom para se trabalhar na noite. Mas isso não está se traduzindo em mídia. Ela continua sendo o que seus atores querem (gravadoras, rádios, televisão). Na verdade tudo parte da gravadora porque existe o jabá, que funciona como um comercial. Quem tem dinheiro para pagar isso são as gravadoras e elas não estão interessadas no samba ou com o que está ocorrendo na noite, apesar das novelas. Apenas as menores se interessam. O samba não toca na rádio. Apenas sucessos antigos e um ou outro como Zeca Pagodinho e Jorge Aragão.

Publicidade