Perfil

As consequências de um seresteiro

Por Daniel Brazil - 17/05/2013

João Macacão é um nome celebrado em todas as rodas de samba, choro e seresta de São Paulo, há muitos anos. Encanador de profissão, ia tocar depois do expediente com a roupa de trabalho, o que lhe valeu o apelido. Craque do violão 7 cordas, tocou com gente do calibre de Orlando Silva, Gilberto Alves, Altamiro Carrilho e Silvio Caldas, além de acompanhar inúmeras vozes e instrumentistas das novas gerações.


Seu segundo CD, Consequências (Pôr do Som, 2013), mostra o melhor do músico: o lado seresteiro, animador de rodas musicais de fina linhagem. E não pense que uma seresta é só feita de clássicos lamentosos como Chão de Estrelas (Silvio Caldas/ Orestes Barbosa)  e A Saudade Mata a Gente (Braguinha), presentes no disco. Há espaço para o humor irônico (o samba-título Consequências (Dedé Paraizo/Edson Conceição), a caricatura politicamente incorreta (Ferdinando, de Canhotinho) e a filosofia realista de Paulo Vanzolini (Volta Por Cima).


Aliás, foi por causa de Vanzolini que João Macacão estreou como cantor da era digital, na hoje histórica caixa Acerto de Contas, de 2002. O cientista-compositor era fã do violonista seresteiro, e o convidou para cantar as faixas Maria Que Ninguém Queria e Falso Boêmio.
O novo CD tem arranjos de Milton Mori, que também toca banjo, cavaquinho e bandolim em várias faixas. As participações são muitas, pois todo bom músico de samba e choro de São Paulo tem prazer em tocar com João Macacão. Estão lá Alessandro Penezzi, Vitor Lopes, Antonio Bombarda, Roberta Valente, Stanley do clarinete, Luizinho 7 Cordas, Swami Jr, Mario Eugênio, João Poleto, Edmilson Capelupi, Tapioca, Alexandre Ribeiro e mais um punhado de bambas.

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João manda bem em faixas como Inquietação (Ary Barroso), O Mundo É um Moinho (Cartola), Mascarada (Zé Keti) ou Laranja Madura (Ataulfo Alves). E ainda recoloca na roda canções menos conhecidas como Homenagem ao Violão (Xandão 7 Cordas), Franqueza (Denis Brean/ Oswaldo Almeida) e Eu e o Rio, de Antonio de Almeida.


Muita gente pode pegar um CD com este, manusear, ler a contracapa e pensar: “Não há novidade”. Informo ao distinto público que aqui há qualidade. E pense bem: qualidade é, cada vez mais, novidade, neste mundo radiofônico dominado pela boçalidade. João Macacão é símbolo de um Brasil que teima em sobreviver, consciente de sua riqueza musical, e que cada vez mais é reprimido pelos números gigantescos de breganejos e pagodeiros de rala poesia e pasteurizada interpretação. Experimente Consequências, é cachaça da  boa!

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