Outras notas musicais

As inúmeras lições do Mário

05/06/2015
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Em vida ou em gloriosa memória, Mário Lago sempre foi é uma reserva moral dentro da cultura brasileira. É só folhear sua invejável biografia, feita de capítulos e contribuições marcantes no rádio, no jornalismo, no teatro, na televisão, na literatura (é autor de livros de poemas, de contos de causos e de pelo menos dois belos volumes de memórias, Na Rolança do Tempo e Bagaço de Beira-Estrada) e na Música Popular Brasileira.
Nasceu no dia 26 de novembro de 1911, aqui pertinho, na Rua do Rezende – uma das ruas mais tradicionais do Centro antigo e atual do Rio de Janeiro. Letrista de sambas inesquecíveis, basta lembrar Emília, Ai que saudades da Amélia e Atire a primeira Pedra (em que, segundo o escritor e jornalista Sérgio Cabral, está o verso mais bonito da MPB: “Perdão foi feito pra gente pedir”), todos esses com o parceiro de primeira hora, Ataulfo Alves. Compôs também inúmeras marchas para o carnaval, como Aurora, valsas e até um fox-canção lindo de morrer, Nada Além, com Custódio Mesquita. Viveu uma época de ouro, quando espalhou o seu charme (“Modéstia à parte, eu era bonito, impertinente, usava paletó e gravata, dançava razoavelmente bem”, contou em entrevista à revista Bundas) e despertou paixões que o levaram a alguns desentendimentos ilustres (“Sou o inspirador do samba do Noel Rosa que diz ‘Pra que mentir/Se tu ainda não tens esse dom?’... teve mulher no meio”).
Carioca da gema, tricolor de coração, o artista teve a vida inteira marcada por uma intensa e coerente participação política, em defesa de sua classe artística e de todas as classes menos favorecidas neste país de distâncias sociais tão grandes. Em todas essas atividades, deixou inúmeras lições. O artista que viveu intensamente nos deixou (e deixou saudades) no dia 30 de maio de 2002.


Desdenhar do sucesso, quem há de?
“Não sei nada mais gostoso do que o sucesso, para quem o cria. Quando algum autor vem com aquela conversa de que não dá nenhuma importância ao aplauso do público, tenho engulhos no estômago, porque é mentiroso. Está querendo posar de diferente. Eu nunca deixei de parar na porta de uma loja de disco onde uma vitrola estivesse tocando uma música feita por mim”.
(Mário Lago, em A Poesia de Mário Lago. Irmãos Vitale, 2003)


E o rádio, quem diria, foi um dia novidade
“Naquela época (década de 1930) o rádio era uma raridade. No morro, então, um acontecimento. Quem tinha um aparelho botava a maior banca”.
(Depoimento de Herivelto Martins para o livro Uma escola de samba, de Jonas Vieira e Natalício Norberto)
Herivelto compôs, exatamente nessa época, samba sobre o tema que foi sucesso na voz de Carmem Miranda, Meu rádio e meu mulato, regravado em 2004 por Marcos Sacramento:

Comprei um rádio muito bom à prestação
Levei ele lá pro morro e instalei no barracão
Toda tardinha quando chego pra jantar
Logo ponho o rádio pra tocar
A vizinhança pouco a pouco vai chegando
E vai se aglomerando o povaréu no meu portão
Mas quem eu queria não vem nunca
Por não gostar de música ou por não ter coração
(...)


O sorriso e o tempero de Zica
Ela dividiu com Dona Neuma o título de primeira e única rainha da verde e rosa. Eusébia Silva de Oliveira, a Dona Zica, dona do mais belo sorriso e criadora dos melhores pratos do samba, nasceu no Rio de Janeiro, em 1913.
Dona Zica ajudou a fundar a Estação Primeira de Mangueira, em 1928, e foi casada com o compositor Cartola, com quem criou, em 1964, o célebre restaurante Zicartola, na Rua da Carioca, que passou a ser ponto de encontro dos sambistas, dos intelectuais e políticos.
Mesmo após a morte de Cartola, em 1980, Zica continuou atuante na Mangueira, até ir morar com as estrelas, pouco antes do carnaval de 2003, no dia 22 de janeiro.
 

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