Outras notas musicais

Historinhas, declarações e conversas sobre a MPB

08/03/2013
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Quem há de escrevê-las?


“Caro amigo Vadico. Bom dia. Há dois dias que lhe procuro em vão. A Araci de Almeida tem que gravar (o grifo é dele) o nosso samba Só pode ser você e essa música tem que ser entre logo mais na RCA Victor. E quem há de escrevê-las nas claves de sol e fá? Só pode ser você. Para evitar desencontros é favor que você a entregue pessoalmente até as 17 horas à Dona Mercedes. Um abraço do velho Noel”.
(Bilhete de Noel Rosa para o seu parceiro Vadico, transcrito por Bruno Ferreira Gomes no livro Wilson Batista e sua época. Funarte, 1985)

Sem aviso prévio
“Quero pedir o aplauso de vocês para estes músicos maravilhosos, que estão tocando hoje comigo pela última vez”.
(Elis Regina, para a platéia de seu show, demitindo em cena aberta toda a banda que a acompanhava. Relato de Joyce, em Fotografei Você na Minha Rolleyflex. Multimais Editorial, 1997)

A ilusão de que ser homem bastaria
“Gilberto Gil estava hospedado na casa de Caetano Veloso no Rio de Janeiro, quando, um dia, o anfitrião chegou entusiasmado com Super-Homem (Superman), um filme que acabara de assistir, com Christopher Reeve no papel de herói. Então, Gil “viu o filme” através da narrativa de Caetano e naquela noite não conseguiu dormir. Ficara tão impressionado com a imagem do Super-homem fazendo a terra girar ao contrário em seu movimento de rotação, a fim de voltar a tempo e salvar a mulher, que acabou pulando da cama para compor Super-Homem – a canção em apenas uma hora, o que contraria seu método habitual de trabalho”.
(Relato dos escritores e pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo, em A Canção no Tempo, volume 2. Editora 34, 1998)
Diz a bela canção de Gil:

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
(...)
Quem sabe o Super-Homem venha nos restituir a glória
Mudando com Deus o rumo da História
Por causa da mulher...


Sucesso é bom
“Não sei nada mais gostoso do que o sucesso, para quem o cria. Quando algum autor vem com aquela conversa de que não dá nenhuma importância ao aplauso do público, tenho engulhos no estômago, porque é mentiroso. Está querendo posar de diferente. Eu nunca deixei de parar na porta de uma loja de disco onde uma vitrola estivesse tocando uma música feita por mim”.
(Mário Lago, em A Poesia de Mário Lago. Irmãos Vitale, 2003)

E o rádio, quem diria, foi um dia novidade
“Naquela época (década de 1930) o rádio era uma raridade. No morro, então, um acontecimento. Quem tinha um aparelho botava a maior banca”.
(Depoimento de Herivelto Martins para o livro Uma escola de samba, de Jonas Vieira e Natalício Norberto)
Herivelto compôs, exatamente nessa época, samba sobre o tema que foi sucesso na voz de Carmem Miranda, Meu rádio e meu mulato, regravado em 2004 por Marcos Sacramento:

Comprei um rádio muito bom à prestação
Levei ele lá pro morro e instalei no barracão
Toda tardinha quando chego pra jantar
Logo ponho o rádio pra tocar
A vizinhança pouco a pouco vai chegando
E vai se aglomerando o povaréu no meu portão
Mas quem eu queria não vem nunca
Por não gostar de música ou por não ter coração
(...)


De Ponte Nova a Ouro Preto

“Quando passei pela terra de Aleijadinho, meu coração, que até então era vadio, ficou barroco”.
(João Bosco, descrevendo as sensações que sentiu ao chegar a Ouro Preto, onde foi na juventude para estudar Engenharia, depois de deixar sua Ponte Nova natal. Songbook João Bosco, Lumiar Editora, 2003)


Adoniran, o malandrinho

“Eu entregava marmita. Só que, no caminho, dava fome. Abria a marmita e contava os bolinhos. Se a família tinha duas pessoa e tinha seis bolinhos, eu afanava dois no caminho, comia dois. Se a família tinha quatro pessoas e ia oito pasteizinhos ou ia dez, eu comia dois no caminho. Era malandrinho já. Não era malandro, era espertinho. Tinha fome. Não era malandro, era fome, não era malandragem”.
(Adoniran Barbosa, em depoimento ao programa MPB Especial, TV Tupi, 1972)

 

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