Outras notas musicais

A batida do violão do João

29/06/2012
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Num dia de carnaval, perguntei a João pela primeira e única vez:

Afinal, João, de onde é que você tirou essa sua batida do violão?

– Deve ter sido quando eu era menino em Juazeiro. As lavadeiras levavam roupa no cesto para lavar no rio e desciam até lá com um suingue danado. Eu tapava os ouvidos e só ouvia aquele negócio, “squintim, squintim”... A cadência sincopada das lavadeiras me inspirou esse ritmo da bossa nova. Acho que foi por aí”.

(Ronaldo Bôscoli, em suas Memórias, organizadas em livro por Luiz Carlos Maciel e Ângela Chaves, Editora Nova Fronteira, 1994)
 

Quem há de escrevê-las?

“Caro amigo Vadico. Bom dia. Há dois dias que lhe procuro em vão. A Araci de Almeida tem que gravar (o grifo é dele) o nosso samba Só pode ser você e essa música tem que ser entre logo mais na RCA Victor. E quem há de escrevê-las nas claves de sol e fá? Só pode ser você. Para evitar desencontros é favor que você a entregue pessoalmente até as 17 horas à Dona Mercedes. Um abraço do velho Noel”.

(Bilhete de Noel Rosa para o seu parceiro Vadico, transcrito por Bruno Ferreira Gomes no livro Wilson Batista e sua época. Funarte, 1985)
 

Sem aviso prévio

“Quero pedir o aplauso de vocês para estes músicos maravilhosos, que estão tocando hoje comigo pela última vez”.

(Elis Regina, para a platéia de seu show, demitindo em cena aberta toda a banda que a acompanhava. Relato de Joyce, em Fotografei Você na Minha Rolleyflex. Multimais Editorial, 1997)
 

Perólas finas da MPB

Tu pisavas nos astros distraída

(Silvio Caldas/Orestes Barbosa)
 

A ilusão de que ser homem bastaria

“Gilberto Gil estava hospedado na casa de Caetano Veloso no Rio de Janeiro, quando, um dia, o anfitrião chegou entusiasmado com Super-Homem (Superman), um filme que acabara de assistir, com Christopher Reeve no papel de herói. Então, Gil “viu o filme” através da narrativa de Caetano e naquela noite não conseguiu dormir. Ficara tão impressionado com a imagem do Super-homem fazendo a terra girar ao contrário em seu movimento de rotação, a fim de voltar a tempo e salvar a mulher, que acabou pulando da cama para compor Super-Homem – a canção em apenas uma hora, o que contraria seu método habitual de trabalho”.

(Relato dos escritores e pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo, em A Canção no Tempo, volume 2. Editora 34, 1998)

Diz a bela canção de Gil:

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter (...)

Quem sabe o Super-Homem venha nos restituir a glória
Mudando com Deus o rumo da História
Por causa da mulher...

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