Memória

Wilson Batista – 50 anos de saudade

Por Alberto Buaiz Leite - 29/07/2018
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A música brasileira sempre contou com grandes autores, mas poucos tiveram a sensibilidade e a criatividade de um mestre como Wilson Batista. Apesar de não tocar nenhum instrumento, exceto a caixa de fósforos, e de ser semianalfabeto, foi autor de mais de 500 composições que foram gravadas por nomes importantes de nossa música.
     Wilson Batista de Oliveira nasceu em Campos dos Goytacazes, RJ, em 03 de julho de 1913. Veio para o Rio de Janeiro ainda adolescente, mas as informações sobre sua vinda são imprecisas. O que se sabe, ao certo, é que trouxe consigo um sonho: ser artista. Nunca gostou do trabalho formal. Na então capital da República, sempre andou pelas bandas da Lapa e Praça Tiradentes, nos bares e cabarés, convivendo com prostitutas e malandros como Miguelzinho Camisa Preta, os irmãos Meira e Madame Satã, dentre outros. Sua admiração pela malandragem fez com que se vestisse como eles, não dispensando o terno de linho, camisa de seda pura, cachecol sobre os ombros e navalha no bolso, apesar de garantir que nunca precisou usá-la.
     A carreira artística teve início aos 16 anos quando compôs seu primeiro samba, “Na Estrada da Vida” que foi cantada por Aracy Cortes num espetáculo no Teatro Recreio. Em 1932, pela primeira vez teve um samba gravado, “Por Favor, Vai Embora”, em parceria com Benedito Lacerda e Osvaldo Silva e lançado por Patricio Teixeira. No ano seguinte, conseguiu seu primeiro grande sucesso com “Lenço no Pescoço”, gravado por Silvio Caldas, onde Wilson fazia a apologia da malandragem como se vê nos versos: “Meu chapéu de lado, tamanco arrastando, lenço no pescoço, navalha no bolso”. Este samba deu início à polêmica musical com Noel Rosa. No mesmo ano, o compositor da Vila respondeu com “Rapaz Folgado” em que dizia: “Deixa de arrastar o teu tamanco, pois tamanco nunca foi sandália, tira esse lenço do pescoço, bota sapato e gravata, joga fora esta navalha, que te atrapalha”. Esta discórdia começou por causa de uma mulher. Noel estava interessado numa morena do Cabaré Novo México, mas Wilson chegou primeiro e conquistou a moça. Para vingar-se Noel resolveu gozar Wilson através do samba. Durante um tempo ficaram respondendo um ao outro através da música e o que importa é que este duelo amoroso e musical nos presenteou com belíssimas obras de ambos. Mas nunca foram inimigos e chegaram a ser parceiros no samba “Deixa de Ser Convencida”.
     Em 1936, o compositor campista formou com Erasmo Silva a Dupla Verde e Amarelo que gravou vários discos de 78 rpm e fez uma temporada de três meses em Buenos Aires. A dupla desfez-se em 1939 e Wilson passou a dedicar-se mais ao trabalho de compositor. No início da década de 1940, alcançou muito sucesso com “Oh! Seu Oscar” e “O Bonde de São Januário”, ambas em parceria com Ataulfo Alves e lançadas por Cyro Monteiro e “Acertei no Milhar”, parceria com Geraldo Pereira, gravado por Moreira da Silva. Outros grandes sucessos, nesta década, foram “Pedreiro Valdemar”, com Roberto Martins, lançada por Blecaute, “Louco” com Henrique de Almeida, gravada por Orlando Silva e “Emília” com Haroldo Lobo, gravada por Vassourinha. Na década de 1950, deu continuidade ao trabalho autoral. com outros sucessos como “Chico Brito” com Alberto Teixeira, gravado por Dircinha Batista, “Mãe Solteira” com Jorge de Castro, gravada por Roberto Silva, “Nega Luzia”, lançada por Cyro Monteiro e “Samba Rubro Negro” gravação de Roberto Silva, estas últimas em parceria com Jorge de Castro. Durante os anos 60, ainda teve alguns sambas. gravados, mas sua produção musical diminuiu. Chegou a ser convidado para participar da Bienal do Samba, em 1968, na TV Record, mas seu samba chegou com atraso e ficou de fora. Contudo, foi homenageado na final do concurso, quando Clementina de Jesus cantou vários de seus sucessos.
     Wilson faleceu em 07 de julho de 1968, por problemas cardíacos. Pobre e doente teve os últimos anos de vida difíceis. Mesmo assim, manteve seu bom humor, ao declarar, na véspera de sua morte: “Se eu soubesse que ia morrer teria vendido todo meu repertório e ia me acabar em Paris com mulheres bonitas.

 

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