Memória

Só dava Lalá

Por Luís Pimentel - 03/01/2016

     “Aqui jaz um compositor que não gostava de jazz”.
     Dizem que o epitáfio musical é mais uma criação do criador incansável Lamartine Babo (caricaturado aqui por Amorim). Pode ser e pode não ser. Certo é que não foi parar na sepultura de número 13614 (bela borboleta!) do Cemitério do Caju, onde o compositor que dizia não gostar de jazz, mas adorava música norte-americana (fez inúmeras versões), foi enterrado na tarde do dia 16 de junho de 1963.
 O caixão foi coberto pela bandeira do América, seu clube do coração (“Hei de torcer, torcer, torcer/Hei de torcer até morrer/Pois a torcida americana é toda assim/A começar por mim”, diz a letra do hino, escrita por ele. A melodia, garantiu João Máximo em artigo para o jornal O Globo, em 4/1/04, é nota por nota de Row, row, row, uma canção justamente norte-americana). Lamartine sofrera infarto na madrugada daquele mesmo dia, poucos meses depois de ter tido outro e se considerar recuperado.

      Lamartine de Azeredo Babo nasceu no dia 10 de janeiro de 1904, na tijucana Rua Teófilo Otoni – à época, Rua das Violas, segundo conta o historiador Suetônio Soares Valença, na obra definitiva Tra-la-lá, lançada em 1981 e referência obrigatória para quem quiser saber da vida e da obra de Lamartine. Segundo Suetônio, Lalá compôs algo em torno de 400 músicas (marchinhas carnavalescas, canções românticas, de inspiração junina, esportivas, por encomendas para o teatro de revistas e até peças litúrgicas) e reinou como um dos grandes na música brasileira por umas quatro décadas (pelo menos, desde o ano de 1927, quando suas canções fizeram sucesso no teatro de revistas, nos musicais É da pontinha, de Djalma Nunes e Jerônimo Carrilho, e Os calças largas, do pioneiro Freire Júnior. Ali já despontava o letrista inspiradíssimo, fazendo versos assim: “Veja, meu bem, que os calças largas/Não te podem sustentar/Sem vintém, almoçam brisas/E à noite vão dançar”.

     Apesar de ser de família classe média, ter estudado nos bons e respeitados colégios São Bento e Pedro II, Lamartine começou a trabalhar ainda jovem, com 16 anos. Encarou nessa época o cargo de offfice-boy no departamento comercial da Light, onde fez pequena carreira durante quatro anos de trabalho. Em 1921, com 17 anos, conheceu dois de seus grandes estimuladores: o compositor Eduardo Souto, dono da Casa Carlos Gomes (editora de partituras) e o publicitário e autor do teatro de revistas, Bastos Tigre. No ano seguinte, por influência dos amigos, já colocava letras e músicas, discretamente, em algumas revistas musicais.

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     Folião de primeira hora, homem de muitos amigos e compositor de pena solta, possuidor de imensa facilidade para criar, Lamartine Babo juntou-se aos bom e por isto teve sempre grandes parceiros. Entre eles, basta citar gigantes como Noel Rosa (A.E.I.O.U. e A.B. surdo, entre outras), Braguinha (Uma andorinha não faz verão), Alcir Pires Vermelho (inúmeras composições, talvez o parceiro mais fiel), Ismael Silva (Ao romper da Aurora), Assis Valente (Bis), Nássara (entre outras belas marchinhas, Cadência), Ari Barroso (No rancho fundo e Na virada da montanha, entre outras) e Roberto Martins (destaques para Valsa do calendário e Volta), além de tantos cobras. Também contou sempre com intérpretes de muito gabarito (quando não era ele mesmo a cantar suas canções), como Carmem Miranda, Mário Reis, Francisco Alves, Carmélia Alves, Araci de Almeida, Orlando Silva, Almirante, Elizeth Cardoso, Jorge Goulart e nem precisa citar outros.

      O carnaval que Lalá tanto amou e que lhe acolheu com tantos sucessos, sempre foi uma marca em sua vida. E se prolongou a ela, com as inúmeras homenagens que escolas, blocos, agremiações ou foliões autônomos sempre prestaram ao grande compositor. Talvez a homenagem mais bonita tenha sido a da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, em 1981, quando desfilou no Rio de Janeiro com o enredo (do carnavalesco Arlindo Rodrigues) O teu cabelo não nega, que ficou mais conhecida como Só dá Lalá (por conta do refrão “Nesse palco iluminado/Só dá Lalá...”

A escola ganhou o carnaval e o povo pôde conhecer um pouquinho mais de Lamartine. Naquele ano (como em 2004, quando o país comemorou o centenário do artista), só deu Lalá.

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