Memória

Nos astros, com Orestes

Por Luís Pimentel - 21/08/2017

     Carlos Drummond de Andrade – que de prosa entendia tudo e em versos dava aulas – dizia que “Tu pisavas nos astros distraída” estava entre os mais belos momentos da língua portuguesa. Eu, que não entendo quase nada, mas sou metido a gostar de música e de letras, digo que “Positivismo” (A intriga nasce num café pequeno, que se toma para ver quem vai pagar / Para não sentir mais o teu veneno, foi que eu já resolvi me envenenar) é uma das mais belas páginas da música brasileira (cantada ou recitada).


     Em comum entre a citação litero-musical de Drummond (“Chão de estrelas”) e a minha está a mesma caneta: do poeta, letrista, jornalista e escritor Orestes Barbosa (visto aqui, muito elegante, no traço elegantérrimo de Amorim); a primeira em parceria com Silvio Caldas, a segunda com Noel Rosa. Além de escrever versos profundos e bonitos, tinha parceiros capazes de chegar junto e complementar a brincadeira com melodias bonitas e profundas.


     Nome hoje pouquíssimo conhecido e quase nunca lembrado, Orestes Barbosa nasceu no Rio de Janeiro, no dia 7 de maio de 1893. Amante das letras desde novinho, aos 13 anos venceu um concurso literário promovido pela revista Tico-Tico e, aos 20, iniciou a carreira de jornalista, estreando no Diário de Notícias. O diretor da redação do jornal era ninguém menos do que Rui Barbosa (ele mesmo, o “Águia”), que se encantou de cara com a habilidade do jovem repórter.

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Muito requisitado na imprensa e também pelos compositores em busca de parceiros, trabalhou nas principais redações da cidade e escreveu inúmeras letras, cada uma mais bonita. Além do genial Noel e do Caboclinho Silvio Caldas, fez duplas com, entre outros, com J. Machado (Romance de carnaval), Oswaldo Santiago (Bangalô), Heitor dos Prazeres (Nega e Meu bem), Nássara (As lavadeiras e Caixa Econômica), Custódio Mesquita (Flauta, Cavaquinho e Violão), Francisco Alves (Adeus e Dona da minha vontade) e Wilson Batista (Abigail e Cabelo branco).


Além de jornalista em tempo integral e letrista dos mais procurados, Orestes publicou ainda inúmeros livros e poemas, de crônicas e de reportagens. Distraiu-se e foi pisar nos astros no dia 15 de agosto de 1966, consagradíssimo como um dos maiores criadores da nossa música e das letras tupiniquins.
Desse não se deve esquecer
 

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