Memória

João da Baiana, 130 anos de nascimento

Por Alberto Buaiz Leite - 28/05/2017

A história do samba carioca só pode ser contada, a partir dos habitantes do centro do Rio de Janeiro, na chamada “Pequena África”. Ali encontramos os precursores de nossa música como, por exemplo, João Machado Guedes, popularmente conhecido como João da Baiana (aqui em foto do acervo da Casa do Choro). Nascido em 17 de maio de 1887, na Rua Príncipe dos Cajueiros(hoje Senador Pompeu), lá cresceu e teve como amigos de infância, Donga e Heitor dos Prazeres.

Era filho da baiana e mãe de santo Perciliana Maria Constança e vem daí o apelido que carregou por toda a vida. Sua mãe, quituteira famosa, conhecida como Tia Perciliana organizava, em sua casa, festas de Candomblé e rodas de samba e nestes festejos, o menino João iniciou sua trajetória de instrumentista, tocando pandeiro que aprendeu com ela. Ainda novo teve participação marcante nos blocos e ranchos carnavalescos, como porta-machado(integrante que abre o desfile defendendo o estandarte da agremiação) ou como percussionista. Sempre afirmou ser o responsável pela introdução do pandeiro no samba.

Tornou-se músico, numa época em que os sambistas eram perseguidos pela polícia. Certa vez, na Festa da Penha, foi preso e teve seu pandeiro apreendido. Pouco tempo depois foi convidado para uma festa na casa do senador Pinheiro Machado, influente político e que era seu admirador. Como não tinha pandeiro, não foi. O senador quando soube a razão de sua ausência, na festa, presenteou o sambista com um pandeiro novo, tendo a seguinte dedicatória, no couro do instrumento: Com a minha admiração, João da Baiana, assinado Pinheiro Machado. Depois disso, nunca mais o sambista foi importunado pela polícia.

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Apesar do envolvimento precoce com o samba e os batuques, João da Baiana nunca se dedicou plenamente à música, pois precisava trabalhar e, aos vinte anos, já era estivador. Mais tarde tornou-se fiscal do Cais do Porto e lá se aposentou. Por esta razão não pôde aceitar o convite de Pixinguinha, em 1922, para ir à Europa com “Os Oito Batutas”, pois não podia abandonar o emprego. Mas teve uma carreira artística importante. Na década de 1920, como instrumentista, atuou em várias estações de rádio, do Rio de Janeiro, tocando, além do pandeiro, prato e faca. Ainda nesta década teve impulso sua carreira de compositor.

Normalmente compunha sozinho, mas chegou a ser parceiro de Dona e Pixinguinha. Seus maiores sucessos foram “Cabide de Molambo”(1928), “Patrão Prenda seu Gado”(1931-com Donga e Pixinguinha), “Batuque na Cozinha”(1968) e “Quando a Polícia Chegar”(1968). A sua discografia inclui dois LPs lançados pela Odeon e bastante importantes para a música brasileira. Um de 1957 intitulado “Batuques e Pontos de Macumba” e outro, em 1968, com Clementina de Jesus e Pixinguinha chamado “Gente da Antiga”. Também lançou vários discos em 78 RPM com pontos de Macumba, todos de sua autoria.

Apesar de toda esta trajetória, nosso homenageado esteve meio esquecido, nos últimos anos de vida, morando, num quarto alugado, no subúrbio de Ramos. Em 1972 passou a viver no Retiro dos Artistas, vindo a falecer, em 1974, aos 87 anos. No entanto, sem nenhuma dúvida, João da Baiana tornou-se uma referência na música brasileira. Sua importância pode ser medida por ter sido o primeiro artista a deixar seu depoimento no Museu da Imagem e do Som, em 1968.

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