Memória

Emilinha, a favorita!

Por Gerdal J. Paula - 04/10/2015

"Com vocês, a minha, a sua, a nossa favorita, Emilinha Borrrrrrrrrrba!" Bastava esse "borrrrrrdão" do apresentador César de Alencar, anunciando-a no programa, para a casa vir abaixo, sob aplausos efusivos e arrebatados dos fãs. Não era para menos, pois, como já observou o jornalista Rodrigo Faour, ela era, simplesmente, a artista mais aguardada da atração de maior audiência da líder da radiofonia do país. Só na Nacional (RJ), desde 1943, ininterruptamente, foram 27 anos para Emilinha (fotos abaixo), que, mais do que boa e simpática cantora, foi uma figura carismática e um fenômeno de comunicação.
 Pensar em Emilinha é pensar em alguém que sintetiza, com exuberância, toda a áurea aura do nosso "star system" de então, de idos sempre vindos à memória pela formação e fixação de uma identidade artística de base popular - no caso dela, em especial, pelas marchinhas (como "Chiquita Bacana", de Alberto Ribeiro e Braguinha), dos versos supraescritos) que se tornaram clássicas em sua voz de plenitude no gênero, embora, como outras colegas de função e prestígio, acolhesse ritmos sortidos no repertório.

Até a consagração naquele olimpo da Praça Mauá, a carioca Emília Savana da Silva Borba, nascida em Mangueira e fã de Carmen Miranda na infância, levara, com êxito, a veleidade artística a auditórios receptivos a valores em busca de um lugar ao sol. Conquistou seu primeiro prêmio, aos 14 anos, na Rádio Cruzeiro do Sul, com o noelesco "O X do Problema", e tirou nota máxima no programa de Ary Barroso, integrando com Bidu Reis, um pouco mais adiante, o duo As Moreninhas, que se apresentou em várias emissoras. Quis o destino que, em 1939, justamente a Pequena Notável, da qual a mãe de Emilinha foi camareira no Cassino da Urca, possibilitasse àquela "garota grau dez" um teste na casa noturna, pelo qual foi contratada, disfarçando a minoridade, sobretudo diante de Joaquim Rolas, o dono do negócio, com sinais exteriores de mulher adulta - vestido de baile e sapatos de salto alto emprestados por Carmen, por exemplo.

Agradando em cheio como "crooner", também atuaria no Cassino Atlântico, sem ter mais o coração flechado pelo cantor Nílton Paz, namorado que perdera para Marlene, a amiga e "partenaire" em algumas gravações (como no samba "Eu Já Vi Tudo"), surpreendentes em razão da famosa rivalidade no palco, cevada, por exemplo, por concursos anuais para a escolha da rainha do rádio.

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Emilinha, ao assinar contrato com a Odeon, em 1941 (pouco antes do longo e glorioso período na Continental), teria, como colega de elenco, sua irmã Nena Robledo (foto abaixo), também cantora e casada com o alagoano José Fernandes de Paula, o Peterpan do samba-canção "Se Queres Saber". Um sucesso de meio de ano em meio às marchas momescas que a Favorita da Marinha também difundiu em cenas de numerosas chanchadas, sobretudo da Atlântida, como "Aviso aos Navegantes" (1951), de Watson Macedo, "Barnabé, Tu és Meu!" (1952), de José Carlos Burle, e "Garotas e Samba" (1957), de Carlos Manga.

Como tudo se transforma, ela, entre outras expressões canoras egressas do rádio, veria reduzido o seu campo de atuação, a partir de meados dos anos 60, ante uma nova realidade política no país, de reflexo musical, como nos festivais, estampado na tevê, já massificada e predominante como meio de informação e diversão - até mesmo outra a animação da folia, de rua e salão, em decorrência do crescente interesse então despertado na classe média pelas escolas e seus sambas de enredo. Vencendo um sério problema nas cordas vocais entre 1968 e 1972 - quando fez três cirurgias e passou por longa reeducação da voz para voltar a cantar -, Emilinha, apesar dos percalços, ainda pôde brilhar em um ou outro momento (como no musical "Oh! As Marchinhas", ao lado de Jorge Goulart, na Sala Funarte, em 1981, sob a direção de Ricardo Cravo Albin), sempre cercada dos seus alegres e fiéis escudeiros. Se não mais destinatária de tantas faixas, coroas, troféus e faixas ou tão fotografada para capas de revista quanto nos tempos da Nacional, ainda assim icônica e sem perder a majestade. . 

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