Memória

Clementina de Jesus – 30 anos de saudade

Por Alberto Buaiz Leite - 26/07/2017

“Lá vem Clementina/Que a todos fascina/Que canta e encanta/Os momentos felizes/Lá vem Clementina/Que mostra, que ensina/A cultura e suas raízes” Com estes versos, os compositores Tiburcio, Antero e João Banana homenagearam, com um belo samba de enredo, cantado em 1982, no desfile da S.R.E.S. Lins Imperial, a cantora Clementina de Jesus. Homenagem merecida para uma cantora que, ao longo de sua trajetória artística, mostrou o que há de mais autêntico na música brasileira.


     Quelé, como era conhecida, nasceu em 07 de fevereiro de 1901, em Valença (RJ), reduto de jongueiros, e cresceu ouvindo sua mãe cantar, enquanto lavava roupa na beira do rio. Assim, aprendeu vários pontos de Candomblé, jongos e cantos de trabalho que, mais tarde, seriam incorporados ao seu repertório e gravados em seus discos. Aos 8 anos, veio com a família, morar na cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Oswaldo Cruz. Com mais idade, passou a freqüentar a Portela e conheceu alguns bambas como Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres. Já gostava de cantar e Heitor a convidou para ensaiar suas pastoras.


Em 1940, casou-se com o mangueirense Albino Pé Grande e foi morar no morro da Mangueira. Trabalhou como lavadeira ou empregada doméstica, durante longos anos, mas o canto sempre esteve no seu caminho. Mais tarde mudou-se para o Engenho Novo e foi nesta época que iniciou sua carreira artística. Em 1963, conheceu Hermínio Bello de Carvalho que, fascinado pela sua voz, consolidou seu ofício de cantora. Sua primeira apresentação oficial ocorreu, em 1964, ao lado de Turibio Santos, no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, num espetáculo dirigido por Hermínio.

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No ano seguinte, protagonizou o espetáculo “Rosa de Ouro”, ao lado de Araci Cortes, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Nelson Sargento. Também dirigido por Hermínio, o musical foi apresentado, com grande sucesso, no Rio e em São Paulo e rendeu a gravação de dois LPs, lançados pela Odeon.
Após o “Rosa de Ouro” sua carreira tomou impulso, com a gravação de seu primeiro disco solo “Clementina de Jesus”, lançado pela Odeon, em 1966. Neste mesmo ano, ao lado de Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Elton Medeiros e outros artistas, representou o Brasil no Festival de Arte Negra em Dakar, Senegal. Segundo Elton “a Clementina nunca foi tão aplaudida, no Brasil, como foi em Dakar. Ela teve que voltar ao palco cinco vezes. Os africanos entenderam melhor a Clementina do que os brasileiros.” Seu sucesso continuou nas décadas de 1970 e 1980. Apesar de ter sofrido um derrame em 1973, recuperou-se e prosseguiu sua trajetória artística.


Sua discografia inclui vários álbuns solos e outros coletivos. Vale destacar o disco “Canto dos Escravos”, lançado pela Eldorado em 1982, onde interpreta, ao lado de Tia Doca da Portela e Geraldo Filme, os vissungos, que são cantos de trabalho dos escravos benguelas, da região das minas, no Brasil. Este álbum mostra, definitivamente, a ligação da cantora com a cultura africana. Com certeza, nenhuma cantora brasileira representou tão bem a africanidade na música brasileira, como ela o fez.


Sua despedida deu-se no ano de 1987. Em maio, nossa Quelé fez sua última apresentação, no Teatro Carlos Gomes e, em 19 de julho, outro derrame causou sua morte. Deixou uma herança musical grandiosa que os verdadeiros conhecedores e defensores de nossa música saberão respeitar e preservar.

 

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