Memória

Caymmi, o que inventou Abaeté e Itapoã

Por Luís Pimentel - 12/05/2017

Contam, sacaneando o autor ou o elogiando, que uma das mais lindas composições da MPB nasceu assim: um dia ele escreveu o verso “Se fizer bom tempo amanhã eu vou”. Um ano depois lembrou que precisava dar continuidade à letra e acrescentou: “Mas se por exemplo chover, não vou”. Claro que é brincadeira com a memória do maior compositor que a Bahia, onde nasceu em 1914 (no dia 30 de abril, mas pode-se comemorar todos os dias), legou ao mundo (Eu sei que temos Assis Valente, Batatinha, Gil, Caetano, Ederaldo Gentil... Mas, fazer o quê?). Também dizem as más línguas que o baiano opera em três velocidades: lento, lentíssimo e Dorival Caymmi. Pois foi lentamente que o Buda nagô dos cabelos e bigodes de algodão construiu uma das mais magistrais obras da MPB.


Mas essa eu vi e ouvi. Novato chegou na melhor roda de samba semanal do país, no bar Bip Bip, na carioca Copacabana, e pediu: “Podem tocar Caymmi“? “Qual você quer ouvir?”, perguntaram. E ele: “Qualquer uma. São todas maravilhosas”. Nunca vi, nem ouvi, tamanha unanimidade. Talvez só Villa-Lobos e Noel Rosa. “Caymmi é um criador abençoado/Navegador das águas da canção/é o compositor do mar predestinado/Seu violão tem cordas de sargaço/E foi cortado de um pedaço de uma velha embarcação”. Quem escreveu isso aí foi Paulo César Pinheiro (chama-se Obá de Xangô), cantando o Caymmi que todos cantam. Querem ver quem mais se derreteu com o poeta dos mares? Dá para lembrar João Bosco e Aldir Blanc (“Dorival Caymmi falou pra Oxum/Com Silas estou em boa companhia”, Nações), Gilberto Gil (Dorival é ímpar/ Dorival é par/Dorival é terra/Dorival é mar”, Buda Nagô), João Nogueira e Edil Pacheco (Caminha, Caymmi) e muito mais. E ainda há muito o que ser cantado.


Caymmi morreu em 2008. Era e é referência e ponto de equilíbrio na MPB. Desde que desembarcou no Rio de Janeiro de um navio da Companhia de Navegação Costeira, em abril de 1938, o jovem que deixou a boa-terra aos 24 anos de idade, mas que jamais deixou de cantá-la compôs verdadeiros hinos do nosso cancioneiro. Afinal, rodas de samba, dedilhadas de violão nas esquinas ou soluços de botequim que não incluem Saudades da Bahia, Maracangalha, Dora ou a morena Marina morena que um dia se pintou não merecem consideração.
“Inventei a lagoa do Abaeté e a praia de Itapoã. Eram desertos antes das canções”, disse uma vez o “falso baiano” por princípio e inspiração. “Sempre vivi no Rio. Via os pescadores baianos como turista, quando ia visitar meus pais nas férias”. Um ano depois de chegar ao Rio, cidade que considerava a mais bonita do mundo, Dorival emplacou o seu primeiro sucesso, o samba-dengoso O que é que a baiana tem?, na voz da grande dama da canção e musa de todos os compositores da época, Carmem Miranda.

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Millôr Fernandes, amigo de juventude, disse em depoimento para a Coleção Gente, da Editora Rio, que o compositor tinha certeza de que faria sucesso. Um dia, às voltas com a arte da primeira página de O Cruzeiro, Millôr ouviu de Caymmi a promessa: “Um dia você vai colocar o meu nome aí”. Um ano depois de chegar já mostrava ao público sua voz límpida, suave e poderosa com a gravação do primeiro disco, um compacto que apresentava de um lado Rainha do mar e, do outro, Promessa de pescador. Daí em diante, foi construir sua obra sem pressa e com delicadeza de ourives, ao sabor precioso da criação. Levou nove anos para finalizar João Valentão e compôs Maricotinha em poucos segundos. Portanto, é mentira a historinha do primeiro parágrafo.


Deus o tenha, Dorival.
 

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