Memória

Assis Valente – 60 anos de saudade

Por Alberto Buaiz Leite - 29/03/2018

Nas décadas de 1930 e 1940 vários compositores alcançaram o sucesso no cenário musical brasileiro e um deles foi José de Assis Valente. Autor de mais de 150 músicas, a maioria sem parceiros, sua obra apresentou enorme diversidade, compondo, além de sambas, músicas juninas e de Natal.


     Assis Valente nasceu na Bahia, mas há controvérsias quanto ao ano. Gonçalo Junior, seu biógrafo, garante que a data certa é 19 de março de 1908. A primeira fase de sua vida é meio obscura. O próprio artista costumava dar informações desencontradas sobre ele. Teve uma infância difícil, mas conseguiu alfabetizar-se e concluiu um curso de Desenho. Estudou Prótese Dentária e sempre trabalhou como protético, sendo o melhor, na sua época. Veio para o Rio de Janeiro em 1927 e aqui sobreviveu vendendo seus desenhos para as revistas “Fon Fon” e “O Cruzeiro”.


     Em 1930, nele a vontade de compor, talvez influenciado pelo destaque que a música brasileira vinha ganhando nesta época. Vários nomes surgiram como Noel Rosa, Almirante, Lamartine Babo e outros e o rapaz, com o apoio de Heitor dos Prazeres, iniciou sua carreira de compositor. Em 1932, já tinha seu primeiro samba gravado – “Tem Francesa no Samba” – por Aracy Cortes. Depois, conheceu Carmen Miranda, por quem ficou apaixonado, não só como cantora, mas também como mulher. Ficaram amigos e a cantora passou a incluir em seu repertório sambas dele. Até 1940, vinte e cinco músicas de Assis foram gravadas por ela. Outros artistas também gravaram suas composições, como Carlos Galhardo, Moreira da Silva, Aurora Miranda e Francisco Alves, dentre outros.

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     Seus maiores sucessos foram a marcha natalina “Boas Festas” lançada por Carlos Galhardo, em 1932, a música junina “Cai Cai Balão” gravada por Francisco Alves e Aurora Miranda, em 1933, “Minha Embaixada Chegou” com Carmen Miranda, em 1934, “Alegria”, em parceria com Durval Maia, sucesso na voz de Orlando Silva, em 1937, neste mesmo ano “Camisa Listrada” lançada por Carmen Miranda. A “Pequena Notável” ainda lançou dois grandes sucessos de Assis: “E o Mundo Não se Acabou”, em 1938 e “Recenseamento” em 1940. Por fim, em 1941, o conjunto Anjos do Inferno gravou “Brasil Pandeiro”, em 1942, Aracy de Almeida gravou” Fez Bobagem” e em 1950, “Boneca de Pano” foi lançada por Quatro Ases e Um Coringa.


     Na letra de “Boas Festas” Assis Valente dizia: “Papai Noel / Vê se você tem / A felicidade / Pra você me dar / Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem". Fez estes versos na noite de Natal, de 1932, quando estava solitário no quarto em que morava, em Niterói. Demonstram a tristeza que o acompanhava desde jovem. A amargura esteve ao seu lado ao longo da vida. Teve um casamento frustrante, realizado em 1939, mas que não durou nem dois anos. O lado positivo foi o nascimento de sua filha Nara que ele muito amava. Na década de 1940, aumentaram seus problemas. Carmen Miranda deixou de gravar suas músicas. As dificuldades financeiras cresceram e ele assumiu muitas dívidas. Assis gastava mais do que podia. Era muito vaidoso e o dinheiro que ganhava como protético, muitas vezes, era utilizado para comprar roupas caras. A partir de 1950, o mercado fonográfico ficou mais fechado e ele não continuou gravando com grandes intérpretes. Este quadro conturbado explica sua morte. Tentou o suicídio algumas vezes, uma delas jogando-se do Corcovado, ainda em 1941 e na última não escapou. Em 10 de março de 1958, sentou-se num banco da Praça do Russel e bebeu guaraná com formicida.


     Após sua morte, seu nome ficou esquecido e só voltou a ser lembrado cerca de uma década depois, quando Maria Bethânia gravou Camisa Listrada, em 1968 e Nara Leão , em 1969, gravou “Fez Bobagem”. Em 1972, os Novos Baianos incluíram, no seu primeiro LP, o samba “Brasil Pandeiro”. Vale lembrar a inclusão de “Minha Embaixada Chegou” no filme “Quando o Carnaval Chegar” de Cacá Diegues, interpretado por Nara Leão, Maria Bethânia e Chico Buarque, em 1973. Até hoje seus sambas ainda são regravados. Assis Valente não pode ser esquecido. Sua obra resistiu ao tempo e ele será sempre lembrado como um dos maiores compositores brasileiros.
 

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