Homenagens

Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 2018

Por Marcio Paschoal (*) - 14/03/2018

O já saudoso cearense ilustre de Sobral, Antônio Carlos Belchior, morto em abril de 2017, aos setenta anos, tem parte da obra revisitada em louvável iniciativa da Polysom, que relança em vinil seu disco de estreia, um Long Playing com onze canções autorais, datadas de 1974. Entre elas, as faixas “A Palo Seco”, “Passeio” e “Na Hora do Almoço”, vencedora do IV Festival Universitário de MPB.

Recentemente em um programa televisivo vespertino, uma entrevistadora comentava toda a sua estranheza pelo fato de Belchior andar tão sumido! Falecido há quase um ano, era natural seu sumiço. Ao menos, físico. Essa e tantas outras sandices são provas incontestes de que a nossa memória cultural é um vexame.

Quando eu divulgava a biografia do grande maranhense João do Vale, deparei-me com perguntas no melhor estilo rolandoleriano (personagem de Rogério Cardoso da Escolinha do Chico Anysio): o João do Vale morreeeu? Não acredito!

Publicidade

Dessa maneira, o resgate em forma de vinil de disco tão significativo vem a calhar. Um dos representantes do Pessoal do Ceará, junto a Raimundo Fagner, Ednardo, Amelinha, Rodger Rogério, entre outros, Belchior, desde cedo, no tempo de sua infância em Sobral, foi emérito cantador de feira e poeta repentista; estudou piano; foi programador de rádio; e estudou Filosofia e abandonou o curso de Medicina no quarto período para dedicar-se à carreira artística.

No início dos anos 70, Elis Regina jogava luz e lançava mais um compositor talentoso e desconhecido, quando gravou a bela “Mucuripe” (parceria com Fagner). Depois, pela gravadora Chantecler, saía o álbum de estreia de Belchior, agora relançado pela Polysom. O trabalho do compositor atingiu seu máximo com a gravação do emblemático L.P. “Alucinação” que viria a consolidar seu nome, lançando sucessos como “Velha roupa colorida”, “Como nossos pais” (também regravadas por Elis) e “Apenas um rapaz latino-americano”.

Conheci Belchior pelas mãos da amiga e atriz Alice Viveiros que, passando por momento de vida bem mais tango que blues, me mostrava a letra de “A Palo Seco”. Dali em diante, fiquei de olho no rapaz latino-americano de bigode esquisito e voz de canto torto, feito uma faca ferindo a nossa carne.

Uma das canções de Belchior mais conhecidas,“Paralelas”, teve o reconhecimento nacional com Vanusa, à época, distante de hinos e ainda com memória infalível.

Bem, de qualquer jeito, saudemos a lembrança de um artista e sua música e poesia formidáveis, num tempo de sucessos bem discutíveis, quando Pablo Vittar precisa de férias para descansar da superexposição, e Anitta grava programa no canal Multishow, tendo como convidados Jojo Todynho, David Brazil e Tirulipa. Sem nostalgia ou rancor, melhor mesmo é fugir de vez, seguindo a marca dos pneus na água das ruas pelas estradas nuas que levam o que um dia foi bonito e nosso. Ah, perversa juventude...

(*) escritor, autor das biografias de Rogéria e João do Vale

Publicidade