Homenagens

Romantismo é mais sentimento que atitude

Por Marcio Paschoal (*) - 13/08/2016

A música brasileira perde um dos seus mais promissores autores, o mineiro atleticano Vanderli Catarina, mais conhecido como Vander Lee. Aos 50 anos, quase 20 anos de carreira e com nove discos gravados, Vander Lee era uma espécie de xodó das cantoras, tendo sido gravado por Elza Soares, Gal Costa, Alcione, Maria Bethânia, Leila Pinheiro, Luiza Possi, Margareth Menezes, Daniela Mercury, Elba Ramalho, Rita Ribeiro, entre outras. Até Emilinha Borba o gravou.


Tive o prazer de conhecê-lo. Era uma pessoa simples , bem-humorada, que adorava conversar sobre futebol. Escrevi sobre seu ótimo CD “No balanço do balaio” (Kuarup) e, mais tarde, comentei o lançamento do CD “Naquele verbo agora” (Indie Records).
Vander Lee começou tocando em bares e participou de festivais , ganhando destaque no “Canta Minas”, em 1966, com a música "Gente não é cor". Depois da premiação, produziu seu primeiro álbum, ainda como Vanderly. Só a partir do segundo disco, passou a usar o nome Vander Lee.


Numa conversa entre amigos, comentou que gostaria de ser enterrado com a partitura de uma de suas músicas, “Alma Nua”, cuja letra falava de “viver como um menino e morrer como um poeta”.
Foi-se o menino, deixou-nos também o poeta e o amigo. Lá em cima, deve estar reunido a outros românticos desvairados, contra o tempo e esperando aviões. Na certa, Deus agora vai poder ouvi-lo melhor.

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Abaixo, crônica escrita em outubro de 2006.

“VANDER LEE OU LY, EIS A NÃO-QUESTÃO”

Conheci Vander Lee em meados do ano 2000, apresentado pelo letrista e poeta Sérgio Natureza, que, dele falava maravilhas. Ouvindo seu disco, supostamente de estreia, “No balanço do balaio” (Kuarup), não só comprovei o que me dissera Natureza, como também fiquei bem impressionado com a sua verve e ritmo. O lado autoral se destacava, prenunciando o artista que logo viria a ser descoberto, saudado como revelação e solicitado pelas estrelas cantantes da MPB.
Dele falei, à época, que havia chegado um compositor mineiro, de jeito bem quietinho, com melodias ricas. No samba malandro “Passional”, um fiel retrato do bom humor de suas letras, um passista sente ciúmes da sua porta-bandeira e avisa que não é de violência mas poderá perder a cabeça uma hora dessas: (“Rolavam Noel, Cartola, Paulinho da Viola e coisa e tal / mas ela pôs um balde de água fria no meu carnaval / girando feito donzela, nos passos do meu rival / eu que não sou de balela, fiz um samba passional”). A autorreferencial “Românticos” foi a melhor faixa, disparada. Uma balada cuja letra assegura que os românticos são loucos e poucos, e que pensam que o outro é o paraíso. Poesia e música envolventes.
Quando ainda estava em estúdio, gravando seu terceiro trabalho, a cantora maranhense Rita Ribeiro (uma das primeiras a gravá-lo) me mostrou a faixa com a balada “Românticos”. Ali, disse a ela, essa escolha é tiro certeiro. De fato, Rita ajudou a firmar o nome do compositor Vander Lee.
Um detalhe, no entanto, passou-nos despercebido, a nós e, acho, à grande maioria: não era a estreia dele, e sim seu segundo disco. Antes já gravara o independente “Vanderly”. Ele renega o disco, autêntico filho bastardo. O próprio Vander explica: “Havia músicas boas no disco, mas eu não soube concebê-las. Não me sinto representado por ele. Era um disco demonstrativo, um cartão de visitas para as gravadoras. Nunca pensei em torná-lo acessível às pessoas. Eu não tinha maturidade suficiente. Foi um disco que serviu para me ensinar como não fazer. Todo artista tem um trabalho que abomina. Decidi mudar a grafia do meu nome”.
O disco é mal produzido e precário, mas traz as originais “Quem me dirá?” (regravada no Balaio), a badalada “Contra tempo” e “Atriz” (regravada no cd “Naquele verbo agora”, Indie Records). Aliás, neste disco, o mais bem divulgado do artista, há o registro da ótima “Iluminado” e da delicada “Meu jardim”, sem contar a recorrente na rádio, “Breu”.
É aguardado para breve novo disco desse mineiro com voz suingada e dono de melodias hipnóticas que conquistaram tantos admiradores. Espera-se que ele arrisque mais e saia dessa perigosa “marca registrada” de baladas românticas e melosas, quase pseudoboleros. Vander tem mais cacife para mostrar.
Agora, no que diz respeito à escolha de pseudônimos, depois do infalível Bruce, da mutante Rita e da calça jeans americana, adotar Lee ou Ly é irrelevante.

(*) escritor, autor da biografia de João do Vale
 

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