Homenagens

O gigante Fernando Faro

Por Daniel Brazil - 25/04/2016

No dia 25 de abril o mundo musical brasileiro ficou mais pobre: Fernando Faro passou pro andar de cima, depois de uma vida ligada às artes, principalmente à nossa música. Não fazia música, não tocava nenhum instrumento (pelo menos profissionalmente). Mas o programa Ensaio, criado e dirigido por ele na TV Cultura, é o mais importante acervo musical de nossa história. Não é pouco.


  Faro nasceu em Aracaju, em 1927, cresceu em Salvador, e veio para São Paulo para estudar Direito. Logo abandonou o curso, ligando-se ao jornalismo, ao rádio e ao teatro. Foi através deste que se tornou um profissional de TV, gravando peças para o programa Ribalta, na extinta TV Paulista.


 Nos anos 60, o Baixo (como era chamado e como chamava todos) realizou especiais de TV que reforçaram sua ligação com a música brasileira. Dirigiu o tropicalista Divino Maravilhoso, na TV Tupi, coordenou festivais de música e programas especiais com Chico Buarque, Caetano, Gil, Gal e Elis, entre outros. Em 1971 passou a integrar a equipe da TV Cultura, onde continuou dirigindo teatro e musicais.

Publicidade


 Mas foi em 1990 que surgiu seu mais famoso filho: o programa Ensaio. Com uma estética inovadora, que incorporava o silêncio, as pausas durante uma entrevista, que ocultava o entrevistador (ele mesmo) e suas perguntas, que mergulhava seus entrevistados na penumbra, muitas vezes recortados em contra luz, Ensaio foi uma revolução. Diz a lenda que, quando jornalista, fez uma reportagem com um criminoso detido, e para que as grades não aparecessem na imagem, orientou a câmera para que fechasse em close no entrevistado. O resultado foi tão bom que inspirou, muito depois, a estética do Ensaio.


 Seus críticos diziam que era televisão-feijoada, pois as imagens privilegiavam detalhes, pé, orelha, mãos, lábios. Na verdade, Faro compreendeu muito bem que o corpo fala, e que sua linguagem era perfeita para o veículo. Abdicando das perguntas, promoveu um instigante jogo com o telespectador, onde além do interesse na resposta pairava a curiosidade sobre o que havia sido perguntado. O resultado parecia ser algo como um confessionário íntimo, intercalado por canções.


Essas novidades não teriam repercussão se não fosse o extraordinário elenco que o programa reuniu, em todos seus 26 anos. Sem preconceito contra gêneros e estilos, Faro aproveitou suas relações mantidas desde o as anos 60 (e era um homem afetuoso e cordial) para estender seus contatos a músicos, cantores e compositores de todo o Brasil. Das maiores estrelas da MPB até astros regionais, de jovens talentosos a antigos ídolos esquecidos, Ensaio reuniu o maior patrimônio audiovisual da música brasileira de todos os tempos. 

São mais de 700 entrevistados, alguns com direito a bis. A TV Cultura lançou uma série de DVDs comemorativos do programa, com uma seleção de nomes fundamentais da MPB. Até hoje, uma passagem pelo Ensaio é um marco na vida de qualquer jovem artista, um reconhecimento. Embora a fórmula tenha experimentado algum esgotamento nos anos mais recentes, sua importância não pode ser mais questionada. Grande Fernando Faro!
 

Publicidade