Homenagens

João Donato: "hashtag" do gurugundum-guerengue​ndém

Por Gerdal J. Paula - 09/03/2015

"Hashtag" indispensável a melômanos virtuais fissurados na bossa nova - embora, injusto consigo, "se inclua fora desta", como já declarou em entrevistas -, João Donato, como se sabe, fez "niver" redondo em 17 de agosto passado: 80 anos, cuja chegada acolheu em sua sustentável leveza de ser, como se o zero da nova idade estivesse à direita do oito.

Tão distraído como outro músico de primeira grandeza da sua geração, o violonista Waltel Branco, Donato - como observou o jornalista Tárik de Souza - já foi até caracterizado como louco, "mito das internas da MPB", de olhos não raro fitos nas nuvens, um endereço presumido da sua motivação criativa. Sempre "na dele", nunca foi de cortejar o neon midiático, sobretudo o dos veículos de massa, para o seu piano encantador e como que encantado. Em 1959, com esse instrumento, na lida musical, já tomando o lugar do fole de iniciação (com o qual integrara a bandinha de Altamiro Carrilho e, em 1956, gravara pela Odeon o dez-polegadas "Chá Dançante"), aceitou o convite de Nanai - violonista e ex-colega do conjunto Os Namorados - para tentar na terra de Tio Sam a sorte que lhe minguava no Rio, seja por suas idiossincrasias, seja por seu toque moderno e inovador, de muito improviso, a desnortear no ritmo colegas de atuação convencional na noite.

   No Natal de 1972, voltando dos EUA para ficar de vez no Rio e encontrando em casa de Marcos Valle o cantor Agostinho dos Santos, Donato é convencido por este a também vestir com a própria voz as suas músicas, até então despidas de letras. Uma mudança de tom no perfil artístico - também pela adoção do seu repertório por outras vozes - que lhe traria, com o advento de grandes nomes nas coautorias versadas - entre eles, em particular, Lysias Ênio -, uma consequência curiosa, além da trazida à audição pelo seu "gorjeio" característico, isto é, sussurrado e algo rouco. A exemplo de "O Sapo" ("The Toad", como "The Frog" fora concebida e conhecida até a gravação de Sérgio Mendes e seu conjunto nos EUA), metamorfoseado por Caetano Veloso em "A Rã", e "Café com Pão", antes "Jodel" (nome de sua filha) sem a parceria do supracitado irmão, músicas de Donato gravadas e conhecidas pelos títulos originais rebatizaram-se e atraíram uma nova faixa de admiradores para o acriano (nascido em Rio Branco e, a partir dos 11 anos, fixado na Velhacap), cujo prestígio e presença de mercado, com diversos CDs lançados, só lhe viriam ao encontro, mais claramente, após décadas de dedos no teclado ao som do seu gurugundum-guerenguendém, genial e intransferível, aqui entendido em sentido largo do seu balanço emblemático.

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Um jeito de tocar ainda temperado por "latinidad" dançante e sestrosa, afro-caribenha, dos idos laborais em orquestras de Los Angeles, e por ecos sentimentais da Amazônia de origem. O bom Donato em seu lugar incomum de inserção na canção popular, muito à vontade.

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