Especial

Vandré: "O Homem Que Disse Não"

Por Gerdal J. Paula - 06/11/2015


 "Fiscalizei chuchu em feira quando o chuchu estava tabelado a quatro cruzeiros velhos e o chuchuzeiro o vendia a oito. Acontece que ele comprava o chuchu a seis e não podia vender por quatro. Quer saber de uma coisa? Nunca mais fiscalizei chuchu nem chuchuzeiro." (Geraldo Vandré)

   "A preocupação política e estética do artista forjado sob a influência da cultura nordestina culminaria na composição que o transformou de vez em inimigo do governo militar e num símbolo da resistência contra a ditadura. Mesmo perdendo o primeiro lugar para "Sabiá" no III FIC, "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores" ("Caminhando"") nunca mais sairia do imaginário nacional.

   Não existe unanimidade sobre a fonte de inspiração dessa música, e o próprio compositor parece não estar interessado em desvendar o mistério. Seja qual for a versão correta - resposta ao rock "Revolution", de The Beatles, crítica à agressão sofrida pelo governador Abreu Sodré na Praça da Sé ou admiração pela apoteótica Passeata dos 100 Mil -, o que importa é que nenhuma outra canção brasileira permaneceria proibida por tanto tempo ou se tornaria um hino cantado em todo tipo de manifestação popular por quase meio século....

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   Em 2007, num momento de extrema lucidez, o compositor escreveu um pequeno texto para o trabalho de conclusão de curso da futura jornalista Jeane Vidal. "Mais que uma canção, "Caminhando" foi um desnudamento", define. "Um dizer-se tudo quando era proibido dizer-se quase tudo. Sem ofensas e sem reivindicações. Um relato indeclinável para todos nós, brasileiros, que ali nos reunimos num concurso de arte, sem paradigma e sem igual, até hoje, para mim." Ao contrário do que era de esperar de alguém que foge da imprensa como o diabo da cruz, o artista foi receptivo e colaborou a seu modo com o trabalho da estudante.

"Minha primeira tentativa de contato foi por meio da irmã dele (Geise). Liguei para ela e expliquei que estava fazendo um trabalho sobre o Vandré e gostaria muito de falar com ele", lembra Jeane em 2014. "Ela anotou o meu telefone e disse que daria o meu recado. Para minha surpresa, meia hora depois, Vandré retornou a minha ligação. Tivemos um único encontro pessoal e vários contatos por telefone, até que finalmente ele aceitou me conceder uma entrevista desde que fosse por escrito. Depois de pronto, entreguei a ele um exemplar do livro, mas nunca tive um retorno quanto ao resultado. Ele simplesmente se recusou a emitir qualquer opinião, mas soube por intermédio de amigos pessoais dele que ele gostou." A jornalista também afirma que alguns entrevistados evitaram responder a perguntas que pudessem causar mal-estar ou prejudicar o relacionamento com o cantor. Ela explica que não publicou o trabalho porque "essa foi uma das condições impostas por ele para ceder a entrevista"."

Curiosa e controvertida pessoa a do pessoense Geraldo Vandré (Geraldo Pedrosa de Araújo Dias - foto abaixo - no RG), recém-chegado, em 12 de setembro, aos seus 80 anos, o qual, vivendo no Rio a partir de 1951, torna-se advogado, dez anos depois, pela antiga Universidade Federal na Rua do Catete, pendura o diploma no pescoço da mãe, fazendo uma graça, e, tranquilizando-a quanto a trabalho imediato, ingressa no serviço público, atuando na Cofap - futura Sunab - como inspetor de indústria e comércio (período que suscitou a declaração acima, dada, em 1967, ao jornalista Lourenço Diaferia). Ainda com ele, em 1961, na colação de grau, entre os formandos em Direito na cerimônia realizada no Teatro Municipal, dois outros compositores de destaque na nossa música popular: João Roberto Kelly (de uma família de professores e juristas, como Octavio Kelly, Celso Kelly e Prado Kelly - avô, pai e tio dele, respectivamente) e Gustavo Adolpho de Carvalho Baeta Neves, o Didi (morto em 1987, aos 52 anos), que assinou sambas-enredo até hoje cantados, como "O Amanhã" e "É Hoje", feitos para a União da Ilha do Governador.

O excerto acima, assim como a informação adicional, consta da biografia "Vandré, O Homem Que Disse Não", de Jorge Fernando dos Santos (jornalista, poeta, compositor e produtor mineiro). 

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