Especial

Semente: na memória afetiva do Rio e da música brasileira

Por Patricia Terra - 08/07/2018

O fechamento do Semente deixou muita gente se sentindo meio órfã, meio perdida, sem referências. A verdade é que o ambiente único, um caldeirão de música viva, onde espontaneidade e rigor artístico davam o tom, está fazendo muita falta. Tantas vezes me senti uma privilegiada por estar vivendo momentos especiais entre tão poucos naquele espaço: estava no lugar certo e na hora certa, e sabia disso. Um pouquinho dessa saudade pode ser matada no próximo dia 19, uma quinta-feira, quando acontece a pré-estreia do meu longa Semente da Música Brasileira. O documentário promete trazer de volta lembranças ternas de alguns dos melhores momentos vividos no palco apontado como mola mestra da revitalização musical da Lapa, a partir do fim dos anos 90. Yamandu Costa, Teresa Cristina, Roberta Sá, Zé Paulo Becker, Moyseis Marques, Nicolas Krassik, Carlos Malta e Marcos Sacramento são alguns dos protagonistas do documentário que abre a Mostra Cavideo 21 Anos, no Estação Net Botafogo, em sessão única às 21h30.
Nesta minha primeira experiência como diretora de cinema, passei por sete anos de aprendizado, vivências, pesquisas, resgates, encontros, flagrantes e muita música! Prazeres, êxtases, transes, sangue, suor e lágrimas! Retratar a potência musical e a evolução desse grupo de artistas em seu quartel general, com criação de público e inovação artística, foi uma ideia, que virou uma cisma, uma devoção, e agora um sonho que se realiza.
Em 2010, quando fui abduzida pelas segundas instrumentais do Zé Paulo Becker no Semente, tinha acabado de pedir demissão do SBT, onde coordenava a pauta local havia 11 anos. Surgiu a ideia justamente quando buscava novos sentidos, depois de quase três décadas de trabalho em reportagem e produção no jornalismo das principais tvs brasileiras, cada vez mais tomado por uma realidade violenta na busca pela audiência, na minha avaliação. Depois de tantos perrengues em redação, apurando, produzindo e realizando peças audiovisuais diversas, me sentia capaz de qualquer empreitada. Sou muito treinada em perceber o que é e o que não é pauta e notícia e percebi ali no que via e ouvia no Semente um conteúdo cultural com peso suficiente para segurar um longa-metragem. Segui meu faro, enquanto seguia meu trabalho como jornalista, buscando trabalhos que entrassem em sintonia com o que acredito, reposicionamento coroado depois, quando atuei nos dois últimos anos do Observatório da Imprensa, com Alberto Dines, na Tv Brasil.
Parti na cara e na coragem com a intenção de fazer um filme que funcionasse como registro histórico de um reduto de efervescência cultural. Eu sabia que, enquanto formava artistas, compositores, intérpretes e instrumentistas, inicialmente em releituras de sambas e choros, o bar tinha sido até então fundamental na criação de público e no engajamento da juventude na cultura nacional. E fui descobrindo aos poucos a grande inovação gerada pelos encontros naquele pequeno espaço, com repercussões internacionais. Tive a sorte de presenciar e registrar grandes canjas no Semente, como as de Chico Buarque, Ney Matogrosso, Dave Matthews Band, Snarky Puppy, Pierre Barouh e Antonio Zambujo, e recuperar imagens de outras, como as de Tia Surica e Beth Carvalho, e estão todas no filme, em imagens captadas de diversas formas, desde full HD até mesmo de celular.
Aline Brufato, inicialmente frequentadora assídua e depois, última proprietária e curadora do Semente, confiou na minha capacidade de realização, me apresentou às pessoas-chave na construção dessa história e sugeriu ao Yamandu Costa que assinasse a direção musical da obra. Aos poucos, fui conseguindo parcerias fundamentais, como a coprodução da Cavideo. O Cavi Borges e eu usamos nossos recursos e fizemos um primeiro corte para mostrar a ideia do filme ao Canal Brasil, que gostou e quis participar. Cavi também teve a ideia de gravarmos um DVD com músicas autorais dos músicos retratados no documentário, garantindo alta qualidade de captação de som e liberação dos direitos, e assim surgiu o DVD Geração Semente, que tem 26 faixas e está à venda desde 2016 na Livraria da Travessa. Precisamos, então, conseguir patrocínio e chegou a valiosa participação da Clínica Jorge Jaber, minha cliente em assessoria de imprensa, que também é coprodutora.
Hoje, o Semente está na memória afetiva da cidade, depois de quase 20 anos de muita música de qualidade. Como diz Aline Brufato, primeiro, frequentadora assídua e depois, última proprietária e curadora do Semente, o filme "é um documentário narrativo sobre experimentar fazer a música que se quer. O Semente foi o lugar. E sua ideia está viva".
Na abertura da Mostra Cavideo 21 Anos, que segue durante uma semana com sete filmes em pré-estreia no Estação Net Botafogo, vamos sentir juntos toda a força dessa música.
Mostra Cavideo 21 Anos
Net Botafogo 1 - Rua Voluntários da Pátria, 88 -
Sala de 250 lugares
De quinta a quarta
Um filme por dia,
Sempre às 21h30
7 pré-estreias
De 19 a 25 de Julho
Dia 19 - Semente da Música Brasileira (Patricia Terra)
Dia 20 - Cidade Invisível (Terêncio Porto)
Dia 21 - Salto no Vazio (Patricia Niedermeier e Cavi Borges)
Dia 22 - Vende-se esta moto (Marcus Faustini)
Dia 23 - Heróis (Cavi Borges)
Dia 24 - Bandeira de Retalhos (Sergio Ricardo)
Dia 25 - Sigilo Eterno (Noilton Nunes)
Preço único R$ 12,00

Julho será um mês de festa para a Cavideo, que começou como locadora na Zona Sul do Rio de Janeiro (ainda aberta e em pleno funcionamento), se tornou, rapidamente, uma das mais prolíficas produtoras brasileiras – com além de 200 filmes em seu currículo – e agora também é distribuidora. Para se ter uma ideia, a Cavideo se tornou a empresa que mais faz filmes no Brasil (uma média de 10 longas por ano) e a que mais lança nos cinemas (quatro anualmente), segundo os dados da Ancine.

Sinopse do doc Semente da Música Brasileira

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O filme registra a evolução da música brasileira e sua dinâmica de criação a partir de encontros que aconteceram no Bar Semente, desde que foi aberto em 1998, na Lapa/ Rio de Janeiro, até seu fechamento, em outubro/2017. A obra valoriza a identidade cultural da cidade mostrando bastidores do espetáculo.
O pequeno lugar biografado é apontado como mola propulsora da revitalização do bairro boêmio, a partir de reuniões movidas a samba e choro, gêneros tipicamente cariocas que, na época, não estavam sendo valorizados.
A primeira proprietária, Regina Weissman, conta no filme que sua ideia era ter um espaço para abraçar novos talentos e se divertir. O improviso e o imprevisto deram o tom e permitiram a produção espontânea de um movimento musical múltiplo e a retomada de um reduto cultural, com formação de público.
O filme eterniza o que chamei de Geração Semente, formada no bar por artistas jovens, hoje consagrados, como Yamandu Costa, Teresa Cristina, Moyseis Marques, Pedro Miranda, Zé Paulo Becker, Nicolas Krassik, Casuarina, Roberta Sá, Nina Wirtti, Alfredo Del-Penho, Eduardo Gallotti e muitos outros, artistas que são os narradores da própria história no documentário.
Eles contam no filme como o ambiente simples e intimista, que colocava o artista bem próximo do público, gerava atmosfera criativa, e favorecia trocas e parcerias. Revelam que sempre sentiram o lugar como a extensão de suas casas, a ponto de terem enfrentado fases em que eles próprios serviam clientes e lavavam pratos, para que o lugar permanecesse aberto. Superada a fase colaborativa em que o lugar passou a se chamar provisoriamente Comuna do Semente, eles recordam o período áureo em que fizeram bailes juntos no Clube dos Democráticos, para mil pessoas dançarem, já sob a curadoria de Aline Brufato, segunda e última proprietária, que assinou a programação e administração do Semente, desde 2004, e estendeu os shows para um espaço maior no bairro na época.
O Semente ficava na Rua Evaristo da Veiga, 149, esquina com Joaquim Silva, aos pés dos Arcos da Lapa. Ficou famoso por ter 'o menor palco do mundo com a melhor música do mundo'. Até seu fechamento funcionou como uma verdadeira ‘incubadora musical’, o que, segundo estudiosos, manteve um padrão de qualidade, abrigando diversos gêneros, contribuindo para a inovação na nossa música com o reconhecimento da imprensa e da crítica especializada, e atraindo turismo cultural qualificado que quer ouvir a nossa incensada brazilian music.  

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