Especial

Empreitada de viola e magia

Por Marcio Paschoal (*) - 20/03/2016

O sul-matogrossense de Campo Grande, Almir Sater (60 anos) e o santista Renato Teixeira (71 anos) amigos e parceiros musicais de longa data e autores de clássicos como “Um violeiro toca” e “Tocando em frente”, lançam novo trabalho, de título esquisito, o cd “AR” (possivelmente uma junção das iniciais dos nomes).


Gravado entre o Brasil e Nashville nos Estados Unidos e produzido por Eric Silver, o disco traz dez composições inéditas da dupla. A curiosidade é que, por mais estranho que possa parecer, este é o primeiro projeto dos dois juntos.


Almir começou sua carreira no início dos anos 1980. Seu primeiro disco-solo foi “Estradeiro” (selo Continental). Além de cantor e instrumentista, ficou mesmo popular como personagem de telenovelas no papel quase sempre de violeiro.

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Especialista na viola de dez cordas, procura um som mais experimental e carrega consigo todas as raízes pantaneiras, mais na linha das guarânias, com notório sotaque andino e paraguaio. Um dos principais representantes nacionais da viola, busca uma associação dela a outros ritmos como o folk, country, rock e blues. Com várias parcerias, tem em Paulo Simões seu mais fértil aliado. Seu último trabalho (“Sete Sinais”) trouxe pérolas como “Serra de Maracaju”, “Lua Nova” e “Cubanita”(a que saiu nua na revista). Nesse mesmo disco há duas parcerias com Renato Teixeira, as ótimas “No rastro da lua cheia” e “Horizontes”.


Renato Teixeira é um compositor completo e colecionador de sucessos, desde os anos 1970. O autor de "Romaria” compôs também "Amanheceu” e "Frete" (tema de abertura do seriado Carga Pesada, da Rede Globo). Gravou com Sérgio Reis (“Amizade Sincera”) e Rolando Boldrim, dois outros baluartes da canção sertaneja, dita de raiz. Renato se mantém profundamente engajado com sua regionalidade, sobrevivendo com sua autêntica música caipira, apesar dos constantes desvios e atalhos da tão explorada e vilipendiada música “sertaneja”.
O disco de Almir e Renato traz algumas composições interessantes, como a quiromante “D de Destino” (cooparceria com Paulinho Simões), vaticinando uma vida além das fronteiras, deixando para trás aqueles que são como pedras de atiradeira, fadados a terminar como grãos de poeira.


“Espelho d’água” é moda de viola bem na linha de Sater, em letra que espelha o sonho ainda como a maior arte da vida.
Uma das melhores faixas do disco (“A primeira vez") é de Renato. Meio no viés autobiográfico e nostálgico, conta as passagens de uma vida e o encanto eterno da estreia, da vez inicial de tudo, a experimentação, ainda que a repitamos tantas vezes depois.
Outra de Renato, “A flor que a gente assopra”, podia bem ser assinada por Ruy Maurity. Tem na levada country dos violões e violas caipiras a sutileza no arranjo.


Com Almir cantando a ótima “Bicho feio”, como um bailado pobre de sacis e pirilampos (Luhli adoraria...) vive-se o folclore na boa melodia (com Rodrigo Sater) em toada vibrante e letra original.
Encerra o disco um louvor violeiro, homenagem aos cantadores do dia de Reis da Bandeira do Divino, com levada que lembra de longe o country-rock dos Byrds, final dos anos 1960.
Enfim, um cd que confirma a classe de Almir e Renato, numa soma de talentos que já devia ter acontecido. Como diz a letra do disco, “quem leva a certeza no peito, nunca terá medo de nenhuma possível empreitada”.


(*) escritor, autor da biografia de João do Vale
 

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