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Serraria e os Tambores do Sul

Por Daniel Brazil - 02/03/2018

A música feita no Rio Grande do Sul há muito tempo merece ser mais conhecida e divulgada no resto do país. Muito além da tradição folclórica, que se mantém firme, do samba-canção de Lupicínio e do pop-rock, que teve boa penetração na mídia nacional nas últimas décadas, existe uma série de grupos, autores e intérpretes interessantes trabalhando com outras sonoridades e ritmos.


A matriz africana, tão forte, em todo o Brasil, não poderia estar ausente nos pampas. É precioso o trabalho de recuperação dos batuques baseados no tradicional tambor-de-sopapo, como os registrados no CD O Berço do Batuque , com toques e cantos da Nação Oyó-Idjexá. Recolhidos do precioso acervo de Mestre Borel, os cantos preservam as letras originais em iorubá, com arranjos de temas escolhidos por Pingo Borel, e recriados pelo grupo Alabê Ôni.


A coordenação geral é de Richard Serraria, artista talentoso que além de pesquisar a cultura negra no Sul há tempos vem mostrando um trabalho autoral de destaque no cenário gaúcho. Formado em Letras e doutor em Literatura Brasileira, Serraria é fundador do Bataclã FC, e do próprio Alabê Ôni. Seu segundo CD, Pampa Esquema Novo, teve participação de Zeca Baleiro e Jorge Drexler, entre outros, e confirmava um compositor e intérprete bastante original.
Seu quarto disco solo, Mais Tambor Menos Motor, lançado em 2017, é parte de um objeto artesanal que envolve uma coleção de cartões postais feitos com pinhole, um libreto com as letras e uma embalagem feita de papelão coletado nas ruas e pintados um a um.

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A música de Serraria é instigante. Letras que fogem do lugar comum são entoadas em ritmo de bossa, samba funkeado, pop percussivo e até fado. Bons músicos da cena gaúcha participam do trabalho, como Tonho Crocco, Zé Caradípia, Angelo Primon, Marcelo Delacroix, Mimmo Ferreira, Zumbira Silva, Lucas Kinoshita e Dany loperz e Nario Recoba.
Com versos provocativos como “saudade só existe em duas línguas/ em tua boca e minha”, Richard Serraria promove a aliança entre a alta poesia e a música popular. Artista múltiplo, consegue tocar tambor de forma erudita e mastigar versos de forma primal, promovendo uma saudável inversão de valores.


Seja pela sua dedicação à pesquisa das origens afro de nossa música, seja pelo trabalho autoral deliberadamente alternativo, fora dos padrões comerciais, Serraria merece a atenção de qualquer um que se interesse pela música popular brasileira do século XXI.

 

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