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Os navegantes do bem

Por Roberto Muggiati - 03/05/2017

O título Dos navegantes remete à tão citada “Navegar é preciso, viver não é preciso”, atribuída a Caetano Veloso, a Fernando Pessoa e até a Camões. Na verdade, a frase foi dita pelo general romano Pompeu (106-48 a.C.) aos marinheiros amedrontados que não queriam ir para a guerra. Tempos duros. Duros também são nossos tempos e bem mais complexos e incertos. Edu(ardo) de Góes Lobo, 73 anos, Mauro Alceu Amoroso Lima Senise, 66 anos e Romero Magalhães Lubambo, 61 anos, são navegantes calejados. Fizeram a ponte entre dois séculos, viveram o movimento estudantil, a ditadura militar, a frágil república de impeachments e vice-presidentes, a inflação galopante, a salvação do real, a volta da crise, o naufrágio petista, a Lava Jato e as delações premiadas e o ano aziago de 2016. O CD, lançado pela Biscoito Fino, tem lançamento nacional no Rio de Janeiro, no próximo dia 13 de maio, na Sala Cecília Meireles.


Curiosamente – prefiro até dizer sintomaticamente – 2016 foi um ano prodigioso para nossos heróis. Mauro lançou seu CD dedicado a Gilberto Gil, Amor até o fim. Por acaso Romero Lubambo, há trinta anos fora do Brasil, estava por aqui e participou de duas faixas. O entusiasmo do reencontro foi tanto que Mauro e Romero engrenaram um CD, Todo sentimento, lançado em outubro. O álbum teve a participação de Edu Lobo em duas faixas. Edu se apaixonou tanto pela formação enxuta do grupo (violão, sopros, contrabaixo, percussão) que decidiu gravar este CD, Edu Lobo/Romero Lubambo/Mauro Senise. Mauro resume: “O CD foi concebido no dia 20 de julho de 2016, era aniversário de Romero Lubambo e o Edu comentou o quanto tinha adorado o feitio simplificado do CD que Romero e eu gravamos, com a sua participação em duas faixas. Minha mulher – e nossa produtora – Ana Luísa botou a ideia na mesa: que tal gravarmos um CD com esta formação: voz, violão, sopros, contrabaixo e uma eventual percussão? A ideia foi aprovada por aclamação. Já no dia seguinte Edu mandou por e-mail uma lista com 32 joias. Aí começou o sofrimento: escolher 11 músicas entre tantas belezas. Foram 7 dias de gravação, 7 dias de alegria, 7 dias que passaram voando, mas que ficarão para sempre na nossa memória.” (É bom lembrar que, dos quatro álbuns dedicados por Mauro a compositores da MPB, o de Edu foi o primeiro: Casa Forte, em 2006, seguido por um DVD gravado na Sala Cecília Meireles, com a participação especial de Edu (voz e violão) em Canção do Amanhecer, parceria com Vinícius.)


O conceito de simplicidade (“menos é mais”) marcou este álbum. Mauro e Romero montaram uma tessitura instrumental que é uma verdadeira cama de plumas para o canto de Edu. Nos raros solos – por isso mesmo mais valorizados – o dedilhado de Lubambo revela a imaginação de sempre e a destreza a serviço da beleza; e os sopros de Senise evocam de certa forma os vocais de Edu (na Valsa dos Clowns ele clona um clown com sua flauta). Aliás, este talvez seja o primeiro CD de Mauro em que a participação das flautas supera a dos saxofones, com destaque para a flauta baixo em Morte de Zambi e para a flauta em sol em Toada e Dos navegantes. Bruno Aguilar está em dez das onze faixas, marcando o pulso com seu contrabaixo sonoro e seguro; e, embora só tenha tocado em uma faixa, Gingado dobrado, Mingo Araújo aproveitou para mostrar tudo o que sabe de percussão.

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Nestes três álbuns de 2016 baixou sem dúvida o espírito jovial do Viro da Ipiranga, o lendário botequim musical do Baixo Laranjeiras onde Mauro e Romero começaram a tocar juntos no início dos 1980 e formaram o embrião do lendário grupo Cama de Gato. E Edu finalmente se juntou à turma...
O Edu Lobo cantor é o foco deste álbum. Ele tem sido um eterno desafio para a mídia: foge à rotulação fácil de cantor de festival; não se espreme nos nichos corriqueiros da bossa nova, foge até como o diabo da cruz do cânone gilbertiano; por vezes visita o romantismo de cantores mais antigos como Orlando Silva ou Nelson Gonçalves (ouçam a Valsa brasileira). Ele é maior do que a soma de suas partes e consegue ser, acima de tudo, uma voz original: a voz de Edu Lobo, um território mágico no universo da música brasileira. Nas dez primeiras faixas deste álbum temos uma demonstração viva disso. Cada canção parece ter sido feita sob medida para sua letra, e vice-versa. O talento de Edu para escolher parceiros é outra chave da sua arte.


O réquiem para Zambi nas palavras de Gianfrancesco Guarnieri, o lirismo enxuto de Paulo César Pinheiro em Dos Navegantes e as quatro obras-primas com a poesia delirante de Chico Buarque – Valsa brasileira, Valsa dos clowns, O circo místico e, em particular, Na ilha de Lia, no barco de Rosa, com versos encantados como “Era tão real, era devaneio, era meio a meio, meio Rosa, meio Lia, meio Rosa, meio-dia, meia lua, meio Lia.”
O navegar é o fio condutor da maioria das letras: “Além do mar (Zambi); meu destino dá no mar (...) eu que nem sei navegar” (Toada); “moinho do mar” (Ilha de Lia); “degredo de amor e de mar (...) “não sigo, persigo outro mar” (Gingado dobrado); “o vento vadio é que fez meu navio voltar pro mar” (Dos navegantes); “eu sou a mulher da rua, o vagabundo poeta, o navegante da lua” (Considerando). A faixa final, composição mais recente de Edu, é a instrumental Noturna, com arranjo e participação ao piano de Cristóvão Bastos. Edu comenta: “É um CD com minhas canções e, é claro, eu canto. Mas o caráter de música instrumental está presente o tempo todo, em todas as canções, o que muito me agrada. E terminamos de uma forma honrosa e comovente para mim: com uma canção inédita, instrumental, que funciona como uma despedida de todos eles ao compositor, já passado dos setenta, mas com um coração ainda de menino. A Noturna fecha os trabalhos e nos emociona. E, é claro, fiquei quieto no estúdio enquanto ela estava sendo gravada, ouvindo apenas e batendo palmas, sem fazer barulho.”
Já Romero considerou a decisão de gravar o CD ter ocorrido justo no dia do seu aniversário “o melhor dos presentes.” Diz ele: “A música do Edu me acompanha e me inspira desde muito cedo em minha vida, mas nunca tínhamos nos encontrado antes.¬ Sonho total realizado! Juntamente com meu grande e supertalentoso amigo Mauro, foi só alegria, carinho e amor que colore cada nota gravada.”


Acompanho o trabalho de Mauro Senise desde que nos conhecemos em 1980 numa antológica feijoada de domingo na casa de Hermeto Pascoal no Bairro Jabour. Depois, abusei da sua paciência durante dez anos como o aluno que nunca fazia o dever de casa. Já escrevi muito sobre seu trabalho, mas nunca havia assistido a uma gravação. Num ameno fim de tarde de uma sexta-feira de outubro, adentrei o simpático estúdio da Biscoito Fino na Rua Sarapuí, no Alto do Humaitá, para ver o outro lado das coisas. Acostumado a receber em casa o produto musical pronto e acabado, era como se eu estivesse vendo um relógio todo desmontado sobre uma mesa. E os músicos e os técnicos empenhados em juntar as centenas de peças. Era tudo descontínuo e solto no espaço-tempo. Romero e Mauro alternaram-se em refazer frases ou trechos de solos já gravados antes; depois chegou o Edu e se pôs a gravar novas canções. Cada um tinha exatamente na cabeça a noção do que precisava ser feito e refeito e os dedos ágeis de Gabriel Pinheiro – o engenheiro de gravação e mixagem – iam colocando as coisas no devido lugar, apoiado pelos assistentes de gravação Lucas Ariel e João Thiré. Todos de uma bela linhagem lítero-musical: Gabriel filho do escritor e jornalista Flávio Pinheiro; Lucas, filho do pianista Marcos Ariel; e João, filho do ator Cecil Thiré. Uma delícia ver como a rapaziada se diverte tanto, na intimidade, com uma alegria quase infantil de fazer música. Mas, folguedos à parte, estes músicos são incrivelmente sérios em relação ao seu trabalho e são tremendos profissionais – foi a impressão maior que me ficou.


Este CD raro de Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise é puro maná para aqueles que buscam na arte algo criativo e duradouro. Ouvindo estes nossos navegantes do bem, arrostando as tempestades de um mundo cada vez mais hostil, prosseguimos a viagem da vida, barcos a favor do vento, arrastados incessantemente para a música.
 

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