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Os gatos e ratos de Odair José

Por Daniel Brazil - 28/11/2016

Uma das figuras mais curiosas da música popular brasileira é Odair José. Compositor e intérprete com momentos bastante originais em sua obra, desde seu surgimento, nos anos 70, foi classificado como “brega”. Autor de sucessos estrondosos como “Uma Vida Só”, cujo refrão todo o Brasil conhece (“pare de tomar a pílula”), Odair José arrumou encrenca com a censura da ditadura militar algumas vezes. Esta foi uma das proibidas.
Não eram só os militares (e a elite bem-pensante) que implicavam com ele. O disco “O Filho de Maria e José”, de 1977, fez com que fosse excomungado pela Igreja Católica, fato que, como ele declarou, “não fez diferença nenhuma na minha vida.”


O artista, nascido em Goiás, sempre demonstrou ser influenciado pelo folk-rock americano, e soube mesclar seu violão de forma eficiente com as letras diretas e, eventualmente, ousadas. Sua música é mais universal que brasileira, mas suas letras traçam um retrato psicossocial do Brasil das últimas décadas de maneira muito interessante.
Com pontaria certeira, o trovador coleciona um número impressionante de sucessos, em sua voz ou na de outros intérpretes. “Deixa Essa Vergonha de Lado”, “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, “Esta Noite Você Vai Ter Que Ser Minha” e “Cadê Você”. Esta última, megassucesso na voz de Leandro e Leonardo em 1990, parecia restringir a obra de Odair José ao universo romântico-brega-popular de forma definitiva.


Certamente isso incomodava o trovador goiano, que chegou a ser chamado de “Bob Dylan brasileiro” nos anos 70 (um exagero, convenhamos), e que havia cantado com Caetano Veloso na Phono 73, show que reunia as maiores estrelas da gravadora Phonogram na época.
Sua música acabou chamando a atenção de jovens artistas do pop-rock nacional, pelas letras diretas e sem preconceitos, pelos acordes básicos e melodias bem delineadas. Em 2006, um divertido álbum-homenagem reuniu 18 grupos e cantores reinterpretando suas canções. Nomeado convenientemente de “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, o disco reuniu gente do calibre de Zeca Baleiro, Pato Fu, Paul Miklos, Mombojó, Picassos Falsos e Los Pirata, entre outros.

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Odair gostou, agradeceu, mas não dormiu sobre os louros. Continua tocando, compondo e gravando. “Dia 16”, lançado em 2015, ganhou elogios e mostrou um artista em plena forma. Um novo CD de inéditas é lançado agora em novembro de 2016, Gatos e Ratos. Sem o nome Odair José na capa, e apenas uma frase (“respeitar as diferenças”) na contracapa, o disco apresenta 10 canções de veia pop-roqueira, gravados apenas com guitarra, baixo e bateria (e eventuais teclados). Os bons músicos Junior Freitas e Caio Mancini acompanham o cantor e guitarrista, que abre com versos como “Pare de se colocar nesse metro quadrado/ quem diz pra você não errar, faz tudo errado” (Gatos e Ratos). Em Moral Imoral, detona: “Não tiro você da cabeça (do pau)”. Reclama da impunidade em “Trânsito”, e aponta que “o caminho pro céu passa perto do inferno” (Segredos). Fala das crianças fora da escola, das drogas, da prostituição infantil, das filas dos hospitais e da superlotação dos presídios (A Cor do Pecado). Insiste que “É preciso aprender melhor os prazeres do corpo” (Açúcar Mascavo) e conclui que “livre/ é quem sobre sobrevive/ por fora do sistema/ sem qualquer esquema” (Livre).


Qual é o lugar mesmo que Odair José ocupa na música brasileira?
 

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