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O piano que conversa

Por Daniel Brazil - 15/01/2018

O cinema brasileiro tem criado, nos últimos anos, um respeitável acervo de documentários musicais, com múltiplas abordagens. Além das esperadas biografias de músicos e intérpretes, há belos ensaios sobre instrumentos, sobre música étnica, sobre comunidades isoladas ou integradas, sobre a função social da música.


No ano de 2017 este rico acervo foi enriquecido com o maravilhoso O Piano que Conversa, de Marcelo Machado. Fugindo dos tradicionais esquemas narrativos, o filme propõe uma imersão sonora e visual em ritmos, cores, formas e culturas, a partir do piano. O diretor afirma que a ideia foi concebida a partir do instrumento, não do artista. São emblemáticas as imagens iniciais de uma oficina de pianos, onde começamos a ouvir outros sons além dos emitidos pelo teclado: pancadas na madeira, lixadeiras, maçaricos.


Se alguém transcrevesse uma partitura do filme, teria de colocar esses e outros ruídos, inclusive as raras palavras pronunciadas, no pentagrama. O filme funciona como uma suíte audiovisual, onde o clima vai sendo construído de forma delicada e atinge momentos de alta densidade poética.

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É claro que nada disso seria possível em a presença desse extraordinário músico que é Benjamin Taubkin. Filho de pai russo e mãe polonesa, Benjamin é um brasileiro de cabeça universal, cuja música dialoga com várias culturas, nacionais e internacionais (o filme tem passagens pela Bolívia e Coreia do Sul), e seu interesse por todo o universo relacionado à cultura marca de forma indelével o filme.


Criador do Núcleo Contemporâneo, essencial ponto de encontros musicais da cidade de São Paulo, organizador de vários festivais pelo país, promotor incansável de diálogos com músicos de todos os calibres, Taubkin já foi visto participando de rodas de viola, de regionais de choro, de cameratas, de pagodes comunitários, de guitarradas paraenses, de peñas latino-americanas, de grupos jazzísticos, de batuques afro-brasileiros, de congadas, saraus e festas juninas. Alguns desses momentos aparecem no filme, dando uma pequena amostra do trabalho apaixonado deste eterno investigador dos mistérios musicais.


A sonoridade de seu piano dispensa o fortissimo, o excesso de notas, o virtuosismo exibicionista. Taubkin constrói climas, texturas, tecidos sonoros que são um convite à participação de outras vozes e instrumentos. Os belos e líricos temas criados por ele, registrados em vários discos, mesclam-se de forma amorosa com os ruídos, vozes e imagens no filme O Piano Que Conversa. Aqui não há entrevistas ou narração. As poucas falas audíveis são parte do ambiente, são música também. A bela fotografia e a montagem atenta reforçam a ideia de que estamos assistindo... música! No mais amplo sentido do termo: a mais bela, inclusiva, mágica e ancestral das artes.


Assista o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=d16lhUgZW6A
   

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