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O arco e a flecha de Iara Rennó

Por Daniel Brazil - 13/09/2016

Pense num arco. Linha curva, tensionada pela corda esticada. Arco-íris, arco-berimbau com a cabaça-útero ressoando os sons que vem de dentro. Agora pense numa flecha. Seta ereta, mero graveto após a trajetória certeira (ou errática). Flecha sem arco não voa, mas o significado permanece.


 Arco e flecha. É a partir desta dualidade macho-fêmea, yin-yang, que a paulistana Iara Rennó desenvolve sua poética musical, esparramada em dois CDs surpreendentes. Arco é um conjunto de canções desenvolvidas a partir dos poemas eróticos que Iara lançou em Língua Brasa Carne Flor (Editora Patuá). Erotismo feminino, bem cerzido, ora cru, ora cozido. Acompanhada por uma banda (quase que só de) de mulheres, daí a artista extraiu a faixa que virou o ousado clipe Mama-me (https://www.youtube.com/watch?v=uhkIklfnodc).


No segundo conjunto de canções, Flecha, Iara Rennó é acompanhada por uma banda masculina. Contraditória (ou coerentemente?), são canções mais líricas, suaves, telúricas. O conjunto de Arco e Flecha é arrasador, retrato de uma artista em erupção criativa, uma das presenças mais marcantes do cenário musical brasileira nesse conturbado ano de 2016.

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Iara Rennó, nascida em ilustre berço musical, é uma das criadoras da banda Dona Zica, com dois CDs gravados, e já havia chamado a atenção da crítica em seu primeiro trabalho solo, Macunaíma Ópera Tupi, de 1998. Instrumentista, compositora, letrista, intérprete, carnavalesca, pós-tropicalista, acústica, eletrônica, anti-sintética, múltipla, Iara instaura ao redor de sua luminosa presença uma aura de provocação, sem perder o foco na musicalidade. Arco e Flecha, no alvo!

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