Artigos

João Macacão, passado e presente

Por Daniel Brazil - 22/01/2017

Em qualquer cultura do planeta existe uma tensão entre tradição e modernidade. Enquanto os tradicionais estão ligados à memória, ao passado, os modernos estão no presente, em movimento, em construção. Na música popular quase tudo que é moderno tem raízes na tradição, seja nos alicerces estruturais invisíveis, seja nas transformações formais evidentes.


 Alguns modernos revisitam o passado com certa frequência, e alguns chegam mesmo a confundir as fronteiras de modo intencional, mesclando matizes e texturas. O moderno “puro” (se é que existe isso) nunca tem certeza se será eterno, o que não quer dizer que o repertório consagrado tenha a mesma garantia. Várias canções caem no esquecimento, e é impossível avaliar quantas não se perderam no tempo.


Nesse sentido, toda revisita ao passado é uma tentativa de reavivar as brasas, de recuperar a chama que iluminou a criação original. Em todos os gêneros, eruditos ou populares, há grupos que se dedicam a ressuscitar obras de vários períodos. No Brasil há muita gente que se dedica ao choro, à seresta, ao samba-canção, e o nicho que ocupam é vital para a nossa cultura.

Publicidade


Um dos nomes de maior trânsito nesse território musical é o do violonista e cantor João Macacão, bamba da noite paulistana. Depois de acompanhar por quase duas décadas o grande Silvio Caldas, seu violão de sete cordas se tornou um dos preferidos de compositores de São Paulo, como Paulo Vanzolini. Nome consagrado nos bares de samba e choro da Vila Madalena, lançou os CDs Serestando (2006) e Consequências (2013), firmando a imagem de cultor da boa tradição sambista e seresteira.


‘ Agora é a vez de Baile de Choro (Por do Som, 2016), projeto contemplado pelo ProacSP, da Secretaria de Cultura do Estado. Com arranjos e direção musical do bandolinista Milton Mori, temos a voz parruda de João Macacão acompanhada por um time de craques: Luizinho 7 Cordas, Lula Gama, Nailor Proveta, Getúlio Ribeiro, André Fajersztajn, Allan Abbadia, Felipe Galeano, Rafael Toledo e outros bambas que produzem uma sonoridade classuda, típica dos melhores regionais.


O repertório é antológico. Vai de Curare (Bororó) até Piston de Gafieira (Billy Blanco), passando por Ary Barroso (Caco Velho), Braguinha (Mané Fogueteiro), Alberto Ribeiro (Fim de Semana em Paquetá), Malfitano (Mente ao Meu Coração) e João Roberto Kelly (De Pandeiro na Mão), entre outros. Na lírica A Deusa da Minha Rua (Newton Teixeira/ Jorge Faraj) João é acompanhado pelo violão exuberante de Alessandro Penezzi, em levada mais intimista.


O CD se encerra com a bela faixa instrumental (Um Chorinho para João Macacão), de Milton Mori, momento ideal para os músicos derramarem seu talento. Só nessa faixa o homenageado assume o violão 7 cordas, no lugar de Luizinho. Trombone, clarinetes, sax-alto, bandolim e violão exploram a bela melodia, em contrapontos dolentes.


Seria esse, portanto, um CD para saudosistas, para cultores do passado? Poderia ser, mas também é – pelo fato de reunir músicos contemporâneos que atuam em várias frentes – alimento para os modernos que almejem a eternidade. Um território de formas consolidadas, onde só os melhores conseguem abrir espaço para explorar e evidenciar seus desafios e sutilezas. Alimento garantido para as futuras gerações!
 

Publicidade